domingo, 5 de fevereiro de 2012

Seminário: Ética, cidadania e o mundo dos negócios - O quê podemos aprender com a filosofia grega


Sempre que realizamos uma investigação mais aprofundada é quase imprescindível o retorno aos gregos. Hoje faremos isso para falar de ética e cidadania no mundo dos negócios. [i]
Iniciaremos esclarecendo o termo ética, do grego, ethos.
 A língua grega é densa de significados e sentidos. Quanto ao termo ethos, poderíamos fazer um seminário somente sobre essa palavra. Mas por hora abordaremos sinteticamente três formas, seguindo o conceito de Adolfo Sánchez. Primeiro, Ethos como índole, caráter, algo inerente, inato a nós que nasce conosco. Depois ethos como hábito, costume, algo que não corresponde a uma disposição natural, mas é construído no convívio social. Esses dois sentidos não esgotam o significado total do termo, mas nos indicam um terceiro sentido especificamente humano no qual se torna possível o comportamento ético/moral. Este comportamento só é possível ao homem na medida em que sobre a sua própria natureza cria uma segunda natureza da qual faz parte a atividade moral. Esse último sentido entende-se o ethos como morada do ser. Tal morada é própria do humano. Somente referimos que um lugar é nossa morada quando estamos nesse lugar de algum modo, diuturnamente, construindo e constituindo  a cada momento como a nossa morada.
Então é mister um seminário dessa ordem, pois a ética como caráter , índole nada podemos fazer,  o ethos como hábito e costume na universidade pouco se pode fazer, mas quanto ao ethos no sentido de morada do ser , muito podemos fazer, que é essa chamamento para o debate, para a discussão fundamentada. Os filmes como Wall street, O gladiador, que foram debatidos em outros momentos desse seminário,  podem servir de trampolim para grandes discussões.
Dessa maneira percebemos que ética tem a ver com liberdade, conhecimento, discernimento, com possibilidade de escolha. A ética se pauta em três perguntinhas: POSSO? QUERO? DEVO? Assim ela é própria do homem. Eu posso falar que um homem não foi ético ao morder a orelha do seu adversário, mas não posso falar o mesmo do cavalo que faz essa mesma ação em uma disputa.
Assim exclui-se a possibilidade de dizer que alguém não é ético.  Está errado identificar o ato ético necessariamente uma pessoa comprometida com o bem.
É errado dizer que alguém não é ético, no máximo ele não compartilha da sua ética, do código de ética da empresa, da ética cristã. O nazismo, por exemplo, tinha um código de ética, e dentro desse código os nazis eram éticos ao segui-lo.
A eugenia pretendida por Hitler também foi também uma pretensão grega mais especificamente em Platão na obra A República. Ao sinalizar que o rei filósofo deveria findar com o casamento e promover as relações entre as almas de ouro, prata e bronze. E que as crianças nascidas com deficiências deveriam ser levadas para fora dos muros da cidade. (isso também se viu em Esparta)

Passemos agora ao termo cidadania. Na Grécia eram considerados cidadãos somente quem exercia participação política, quem participava da democracia, que embora tenha surgido na Grécia teve curta duração e nem era para todos. Posteriormente, o termo cidadão esteve associado ao burguês não ao povo todo. A começar pela etimologia da palavra percebemos certa discriminação originária.  A separação entre homem urbano e rural. Uma vez que o termo cidadão refere somente as pessoas que habitam a cidade. Mas cidadania esta está ligada a ideia de compromisso ativo, com a sua sociedade e o seu país.
Segundo Gilberto Dimenstein em Cidadão de papel, cidadania é o direito de ter uma ideia e poder expressa-la, é poder votar em quem quiser sem constrangimento, é processar um médico, ou qualquer outro profissional que cometa um erro contra sua saúde. É devolver um produto estragado, e receber o dinheiro de volta, é de ser negro e não ser discriminado, é de praticar uma religião sem ser perseguido, há detalhes insignificantes que que revelam o estágio de cidadania em que se encontra um povo, respeitar o sinal de transito, não jogar papel na rua, não destruir estatuas, telefones públicos por trás disso esta o respeito a coisa publica , a republica. Este respeito nos leva a responsabilidades, a escolhas, a deliberações éticas.
É comum falarmos que queremos ser livres como pássaros, na verdade os pássaros não são livres. Eles não têm escolha, somente podem agir de um modo determinado pela natureza, as andorinhas voam necessariamente em determinadas épocas e para determinados lugares.
Dessa forma percebemos a estreita ligação entre ética e cidadania.
A ética nos negócios
Quando falamos em ética nos negócios temos que pensar o que é o “negócio” em que consiste o homem de negócio. O termo Neg – ócio do grego significa aquele que nega o ócio. A sociedade grega valorizava o homem que se dedicava ao ócio. Hoje valorizamos o homem de negócio, quanto mais atividades estudos, trabalhos, vida corrida quanto mais se nega o ócio melhor são vistos socialmente.
Mas melhoramos sob o ponto de vista ético, científico, na forma de trabalho? Para responder essa questão trago o seguinte exemplo de dois filmes O gladiador e Calígula.
Parte de nossa formação cultural tais como idioma, organização política e o Direito tem raízes na cultura romana. Assim aos gregos devemos muito mas não tudo!  Qual a importância desse primórdio cultural no mundo contemporâneo tão diferenciado pelas conquistas científicas? É fato que as conquistas no campo da física, química, medicina entre outros nos fazem pertencer ao melhor dos mundos conhecidos historicamente. Todavia sob o ponto de vista da moral, estamos tal quais aos homens do Império Romano.
O fato que relembro para esta análise é o caso do antigo  prefeito da Cidade de Goiás Boadyr Veloso, (agora morto, assassinado em condições até hoje não esclarecidas) investigado pelo crime de pedofilia. Tal assunto nos faz perguntar o que leva uma pessoa a cometer ações como do caso em questão? Quais patologias envolvem tal atitude? Entretanto, mais aterrorizante do que o crime que pode ter acontecido, é o como a sociedade se relaciona com o fato. A qual tudo assistiu de forma blasé.[ii]
Esse caso nos remete a dois filmes que relatam aspectos da cultura romana O gladiador e Calígula.
Em O gladiador é mostrado o povo indo ao Coliseu para assistir  prazerosamente pessoas serem machucadas e mortas por homens e feras.
Quem proporciona tudo isso é visto como herói. Hoje essas cenas nos causam horror devido a crueldade.
Mas então vos pergunto em que consistem as festas de rodeio? Essas festas são arenas montadas para divertir utilizando animais e pessoas que são machucadas para o delírio de outras.
As pessoas vão às arenas para assistir ao espetáculo das grandes quedas e as mortes ou pelo menos a iminência delas.
Mas somos tentados a acreditar que hoje os gladiadores e os seus espetáculos não existem mais.
No filme Calígula é mostrado o imperador que usa do seu poder para extravasar os seus desejos de subjugação do outro, como a pederastia, pedofilia entre outros comportamentos.
Atualmente muitos acreditam que estamos melhores, que evoluímos. Quando vêm a baila cenas como as apresentadas nesses filmes, surge a necessidade de censura total ou parcial de acordo com a idade.
Podemos almejar alcançar um avanço moral que se aproxime das nossas conquistas científicas, pois sob o ponto de vista científico estamos indubitavelmente melhores. Embora sob o aspecto que perpassa a moral estamos tão bárbaros quanto os romanos que se divertiam e aceitavam homens da política usarem de seu poder para realizar suas transgressões sexuais.
Enfim o que podemos aprender sobre ética e cidadania nos negócios com a filosofia grega?
Podemos dizer que só é possível atingir a condição humana, não nascemos humanos, nos tornamos ao longo da vida, por meio do pensar, do agir ético, moral, na vida e nos negócios. Einstein tem uma frase emblemática, somente a moralidade das nossas ações pode nos dar a beleza e a dignidade de viver.
 Os gregos embora não tenham abarcado com a cidadania grande numero de pessoas, tentaram brilhantemente encontrar esse caminho. Cabe a nos subir nos ombros desses gigantes e dessa forma, enxergando mais longe, fazermos mais do que eles fizeram. Estamos melhores hoje sob todos os aspectos, tecnológicos, expectativa de vida etc. Mas sob o ponto de vista moral creio que não. Teorias relacionadas a medicina, a física desenvolvidas pelo gregos estão superadas, mas no que se refere a ética não estão superadas e tampouco resolvidas. Os problemas sociais permanecem. No mundo dos negócios sempre que se for tomar uma decisão faz necessário encontrar uma solução que sem prejudicar os interesses da empresa pudesse também atender aos interesses mais amplos da sociedade. Agir eticamente pode ser o diferencial de uma empresa e condição de sobrevivência no mercado. A responsabilidade social está aí nos mostrando isso. No entanto, há outro detalhe, quando eu troco um produto estragado para não sujar o nome da minha empresa no mercado, e não pelo correto em si mesmo, eu não estou a rigor agindo moralmente, mas seguindo a ética mercadológica do dinheiro. E quando a situação pesar mais para o financeiro eu deixarei de agir idoneamente.
Nenhuma empresa ou pessoa é somente boa ou má é a síndrome de Davi. E a reviravolta da história de Schindler. Davi é um grande homem, boníssimo que em um dado momento tem um deslize, se apaixona por uma mulher casada e para se livrar da culpa manda o marido dela para morrer na guerra. Schindler é um nazista que se enriquece com a exploração dos judeus e em um dado momento toma uma decisão que modifica todas suas ações anteriores.  Usa tudo que conseguiu por meio de prestação de serviços aos nazistas para salvar milhões de judeus. Desse modo a historia de que existem maças podres e ovelhas negras não procede, uma vez que ninguém é somente bom ou mau. Transitamos entre uma coisa e outra, por isso a importância da ética como ethos, no sentido não somente de caráter e habito, mas como morada do ser, aquela condição que nos torna humanos e que só pode ser alcançada por nos mesmos e por nossa constante analise, julgamento e da busca de sermos melhores sempre. Porque mais do que vantajoso ser ético nos mundo dos negócios, devemos ser éticos porque é isso que nos humaniza. Hoje com o enfraquecimento do poder de persuasão das religiões, da família, da escola, faz se ainda mais necessário essa predisposição individual de ser ético, cidadão em qualquer circunstância.

Bibliografia
SROUR, Robert Henry. Ética empresarial. Campus, Rio de Janeiro, 2000.
VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Ética, civilização brasileira, Rio de Janeiro, 2003.
PLATÂO, A República
SOUTO, Ana Kelly F. A Moral dos Romanos. Jornal Goyazes, NI - julho de 2004 – Faculdade de Direito UFG extensão - Cidade de Goiás.






[i] Texto elaborado para apresentação no Seminário:  Ética, cidadania e o mundos dos negócios - O quê podemos aprender com a filosofia grega – Faculdades Delta – Goiânia 17/01/2012

[ii] O caso Boadyr foi amplamente divulgado pela mídia, Revista Época julho2004. No dia 20 de maio de 2004 a então senadora Patrícia Sabóia, presidente da CPI da exploração sexual esteve em audiência ocorrida na catedral da cidade de Goiás no dia 20 de maio. A audiência foi realizada em função do caso Boadyr.

Ana Souto
Graduação e mestrado em filosofia, doutoranda em educação.

6 comentários:

  1. ethos me lembra os trechos que li da obra Paideia. ótimo texto, a ética e sua liagção com a liberdade é interessante, a questão ética me fascina, mas fico com o pé atrás em relação a moral.

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    1. A Paidéia é uma obra magnífica mesmo. Mas por que .. vc acha mais problemática a moral do que a ética??

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    2. a moral geralmente é mais concervadora, não que a ética não seja também, mas a moral tem um caráter mais repressor, já na ética há uma possibilidade de diálogo e liberdade maior.

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    3. Sim a moral cria valores. A ética, não! Apenas bebe na fonte da moral e busca uma racionalização desses valores morais.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. CREPÚSCULO DE UM BEIJO


    O que mais posso desejar
    Senão um beijo seu?
    Dele emana o calor me aquece
    O mel que me alimenta...
    Meu coração dispara!
    Molhado ele se veste de paixão
    Deslumbrante ele se torna com o crepúsculo,
    Prisioneiro se transforma ao nascer do dia,
    Senhor absoluto de minh’alma aguerrida.
    Da chama eterna, o beijo desperta...
    Lábios se tocam em loucuras,
    Línguas sem idiomas se comunicam
    Num total clima de amor e prazer
    O êxtase se inicia...
    É o crepúsculo de um beijo.

    *Agamenon Troyan

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