sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Descartes e Husserl: encontros e desencontros do ego cogito


Este  trabalho investiga no pensamento de Husserl e  Descartes, os desencontros e as convergências da idéia do ego cogito. E, sobretudo argumenta que o principal em Husserl é o novo modo de percepção do mundo. Na introdução das Meditações Cartesianas, Husserl referenda a importância de Descartes e o apóia no desejo de uma filosofia  rigorosa. Mas se perante a academia francesa, afirma ser um “quase” neocartesiano. Na obra Idéias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica, não parece tão tributário a Descartes, mas talvez, entenda que o francês é que deveria tributos a ele. Pois todos os filósofos modernos pretenderam construir a ciência rigorosa. Nota-se que Descartes foi um entre outros nessa busca. Então Husserl se declara o ápice da modernidade, por ter levado adiante essa tarefa, a saber, a fenomenologia. Sustenta-se que o austríaco difere-se menos pela originalidade dos conceitos e mais pelo novo modo de percepção do mundo. Em parte isso pode ser mais bem compreendido a luz da visão científica contemporânea a cada um. Como diz Bachelard, não é a razão filosófica que doma a ciência, mas sim a ciência que instrui a razão. De outro modo Ortega y Gasset diz, eu sou eu e as minhas circunstâncias. Em parte, a dúvida cartesiana, decorre das novas descobertas científicas, do século XVII, que segundo Koyré, promoveu a destruição da idéia de um mundo acabado e ordenado e substituiu por um mundo indefinido. Tais  fatos clamam por outro modo de percepção do mundo. Assim Descartes inaugura com o ego cogito, o pensamento moderno, humanista e antropocêntrico, no sentido de que o homem está no comando e não mais deus ou o cosmos. O problema dessa percepção é a  finitude  e fragilidade do humano. Que no humanismo cartesiano transverte de uma supremacia, ao sustentar que somos dotados de razão e conduzindo-a bem, podemos conhecer. Por outro lado, as ciências dos séculos XIX e XX, representada pela teoria da relatividade podem ter impulsionado o sincrônico Husserl a retomar Descartes. Mas a grandiosidade da fenomenologia reside na idéia de transcendência na imanência. Essa forma de transcender não leva a supremacia, quer seja de deus ou do cosmo. E se conduz ao próprio homem, esse não possui preeminência. Pois a fenomenologia pretende ser a crítica de todas as ciências, mas também  de si própria, disso desprende um possível elemento de inovação husserliana. Esse argumento é clarificado quando Husserl diz que, ao olhar uma caixinha de seis lados, sempre será possível enxergarmos no máximo três lados. Na filosofia isso implica que a transcendência na imanência husserliana não leva a onisciência, ao saber absoluto. Pois compreende que todo visível apresenta-se sob um fundo invisível. Enfim, a resistência da fenomenologia está em sua brandura diante do conhecimento.

Palavras-chave: ego cogito. Novo modo de percepção do mundo.  Modernidade. Fenomenologia. Transcendência na imanência.
Ana Souto

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