sábado, 28 de janeiro de 2012

Ecofeminismo

        A separação e diferenciação entre o homem e a natureza é observada em vários momentos distintos da história. Essa ideia de distinção, decorre da errônea interpretação de que o homem é separado e superior a natureza e que essa, existe para servi-lo.
        Vários fatores epistemológicos nos levam a isso, entre eles podemos salientar a nossa formação cristã, que é bastante antropocêntrica, e nos ensinou que Deus criou  o homem a sua imagem e semelhança isto é, bem acima dos animais e pouco abaixo dos anjos. Além da preeminência do homem sobre a natureza podemos vislumbrar, no cristianismo, a pujança também do homem sobre a mulher quando essa é feita a partir de sua costela.
        Existe uma ideia muito difundida que é a da “mãe natureza”.  Por vezes eu me recordo dos meus estudos no primário, o qual sempre no dia da árvore a professora nos pedia para produzir um texto ou elaborar um cartaz sobre a importância da natureza, Essa frase era clichê em nossos ingênuos trabalhos, A natureza é importante, porque é a nossa mãe! Salve a mãe natureza.
Essa máxima ainda muito repetida quando falamos da importância da preservação da natureza nos indica o tipo de relação existente entre o homem e natureza, nos aponta para valores ideológicos implícitos na máxima que vão contra os princípios de igualdade entre ambos, mas de subjugação da natureza pelo homem.
        A ideia de “mãe natureza” surge com Francis Bacon, e não tem nada de positivo. O sentido da palavra mãe é aquela que tudo dá sem esperar nada em troca, é aquela que existe para servir da melhor forma aos seus filhos. Assim, quando falamos de mãe natureza, o que está implícito  é o entendimento de que a natureza existe para nos servir, ser explorada sem esperar nada em troca, como a mulher mãe. A ideia cristã de mãe é aquela que se resigna para a felicidade do filho e se realiza muito mais em sua cria do que em si mesma.
Essa concepção defendida por  Francis Bacon, de que a natureza deve ser dominada pelo homem para servi-lo da melhor maneira foi estendida a mulher que deve ser dominada para servir ao homem. Tal concepção já existia em Platão, Aristóteles, Maquiavel entre outros..
Quanto a existência de diferenças entre homens e mulheres isso é indubitável, a diferença sexual, é encontrada na natureza e é o  primeira grande sistematização do mundo.
        Assim as diferenças existem e em larga medida isso tem gerado historicamente intolerância e violência. Violência do homem contra a natureza, contra as mulheres, de homens sobre outros homens, quando se crê que um povo é superior a outro.
        Quando um grupo subjuga o outro e o segundo tem a chance de revidar vem a violência que parece legitimar a violência. Um exemplo que podemos destacar é o nazismo, quando Hitler infligiu humilhações ao povo judeu. E hoje a agressividade dos judeus sobre os palestinos assemelham as perseguições que sofreram dos nazistas.
       Expostas essas reflexões acerca da subjugação que o homem comete sobre a natureza e a mulher, uma vez que a compreensão de natureza e a condição da mulher trazem matizes que se aproximam. Surge a necessidade em aceitar as diferenças o que nos injeta uma dose de tolerância que nos enriquece o espírito e nos abre a universalidade.
        Emanuel Levinas em Totalidade e Infinito nos diz que a primeira forma de violência está em pretender compreender o outro. Pois segundo o filósofo, cada homem é único e infinito. Assim, como cada rosto é diferente do outro, nós em essência somos únicos e infinitos. Isso implica que cada homem não é igual a nenhum outro e dentro de si experimenta a finitude, assim quando quero compreender o outro é impossível. Pois por mais que eu me esforce, o outro é um universo diferente do meu e infinito que não poderá ser abarcado pela minha universalidade e finitude. Então para que eu possa romper o limite de minha infinidade, devo simplesmente aceitar, ouvir o outro e assim me realizar no outro.
        Um dos traços fundamentais de qualquer forma de organização na natureza ou nos sistemas informacionais, é a aptidão para transformar diversidade em unidade, sem anular a diversidade, e também para criar diversidade na e pela unidade  segundo Edgar Morim.
A partir de 1970 surge uma corrente de pensamento intitulada ecofeminismo. O ecofeminismo propõe superar a dicotomia homem/natureza  como também sustenta Edgar Morin. Além disso, investiga as relações entre a dominação da natureza e da mulher. O termo foi usado pela primeira vez por Françoise d´Eauboune, uma francesa e feminista, que defende a ideia de que o ambiente é feminino e o combate a exploração da natureza levará a libertação da mulher. “ O ecofeminismo é a  teoria que busca o fim de todas as formas de opressão. Relaciona as conexões entre as dominações por raça, gênero, classe social, dominação da natureza, do outro - a mulher, a criança, o idoso, o índio. Identificam-se vários Ecofeminismos que acordam quanto fim dos "ismos" de dominação, sejam eles históricos, simbólicos, casuais, literários, políticos, religiosos, étnicos e buscam igualmente o resgate do Ser. Um convívio sem dominante e dominado, onde há complementação e nunca exploração.” A ética ecofeminista repudia todas as formas de dominação e discriminação, fundamentados na não aceitação da diferença, incluindo grupos étnicos, homossexuais e outras minorias. (warren, 1987, 1994)
        O feminismo por si só instauram o paradoxo para simplificação ao reivindicarem a igualdade com os homens  sendo diferentes e os ecologistas o fazem ao reivindicarem a proximidade humana da natureza na busca de solução para a crise ambiental. Essa visão simplista de  ambos devem ser superadas. A visão de Edgar Morin caminha para a superação dessa aporia. “A natureza é aquilo que liga, que articula e faz comunicar profundamente o antropológico, o biológico e o físico, também em sua dimensão cósmica”  (p. 30)
        A crise ecológica que temos experimentado nos leva a uma nova mentalidade que modifica efetivamente  o tratamento da questão da diferença.
        Em linhas gerais o ecofeminismo identifica o gênero feminino com a  natureza, o pensamento econômico ocidental vê as mulheres e a natureza como recursos naturais que existem para ser explorado para a acumulação do capital; segundo o ecofeminismo a cultura se identifica com o homem e a mulher com a natureza e existe assim, uma supremacia da cultura sobre a natureza. Assim quando a cultura não se sobrepuser a natureza o homem não se sobreporá a mulher; as políticas científicas e tecnológicas tem se desenvolvido no sentido de estimular as diferenças de gênero  e exclui a mulher do mundo do conhecimento. Ficando a mulher a área da natureza para atuar e agir enquanto o homem a modifica e altera.
        Isso pode ser visto na chamada “segunda onda do feminismo” da década 60 que eclodiu na Europa e EUA o qual se engajou em movimentos pacifistas, antimilitaristas e antinucleares que culminou nos movimentos ambientalistas que conhecemos hoje.
        Percebemos assim, que a preocupação da defesa da exploração da natureza surge dentro de um movimento de defesa da exploração das mulheres.
O senso comum, imbuído de ideologias machistas e dominadoras, ressalta que ao contrário dos homens as mulheres são sonhadoras, fracas e moralmente melhores. Isso se deve ao fato de  que nesses movimentos questionavam a dicotomia trabalho intelectual  / manual, entre o público / privado, espaços produtivos / reprodutivos, físico/mental, racional/intuitivo, emocional/objetivo Além disso, traziam a ideia de que a riqueza material muitas vezes era acompanhada da pobreza material. Buscavam resgatar a importância da vida simples em que a pobreza não se identificava com pobreza e privação. Assim surgiu a equivalência dos ideias feministas e da sociedade ecológica.
        Essa equivalência das reinvindicações feministas e as necessidades ecológicas só se separaram quando o movimento feminista começa a buscar a igualdade com os homens em direitos civis, ingresso na política igualdade de trabalho remuneração equivalente.
        Assim, o ecofeminismo pretende ver as questões ambientais e humanas de maneira holística.
        Essa visão holística é também defendida por Frijof Capra em Ponto de mutação e a Teia da Vida.
        “Além da ecologia profunda, há duas importantes escolas filosóficas de ecologia, a ecologia social e a ecologia feminista, ou "ecofeminismo". Em anos recentes, tem havido um vivo debate dos méritos relativos dessas três escolas. Parece-me que cada uma delas aborda aspectos importantes do paradigma ecológico e, em vez de competir uns com os outros, seus proponentes deveriam tentar integrar suas abordagens numa visão ecológica coerente. A percepção ecológica profunda parece fornecer a base filosófica e espiritual ideal para um estilo de vida ecológico e para o ativismo ambientalista. No entanto, não nos diz muito a respeito das características e dos padrões culturais de organização social que produziram a atual crise ecológica. É esse o foco da ecologia social. O solo comum das várias escolas de ecologia social é o reconhecimento de que a natureza fundamentalmente antiecológica de muitas de nossas estruturas socioeconômicas está arraigada no que Riane Eisler chamou de "sistema do dominador" de organização social. O patriarcado, o imperialismo, o capitalismo e o racismo são exemplos de dominação exploradora e antiecológica. O ecofeminismo poderia ser encarado como uma escola especial de ecologia social, uma vez que também aborda a dinâmica de dominação social dentro do contexto do patriarcado. Entretanto, sua análise cultural das muitas facetas do patriarcado e das ligações entre feminismo e ecologia vai muito além do arcabouço da ecologia social. Os ecofeministas veem a dominação patriarcal de mulheres por homens como o protótipo de todas as formas de dominação e exploração: hierárquica, militarista, capitalista e industrialista. Eles mostram que a exploração da natureza, em particular, tem marchado de mãos dadas com a das mulheres, que têm sido identificadas com a natureza através dos séculos. Essa antiga associação entre mulheres e natureza liga a história das mulheres com a história do meio ambiente, e é a fonte de um parentesco natural entre feminismo e ecologia. Consequentemente, os ecofeministas veem o conhecimento vivencial feminino como uma das fontes principais de uma visão ecológica da realidade.
        Em 1970 foi atribuída a mulher a responsabilidade do controle da natalidade. No entanto, isso envolve complexos aspectos de dominação da mulher como sexismo, racismo e opressão e fatores culturais. Pois mesmo em áreas de dificuldades de higiene, saúde, carência de alimentos elas continuam com uma grande prole.
        Vejamos:
        Sexismo: ao analisar o crescimento populacional não se pode desconsiderar a opressão que as mulheres sofrem nas sociedades patriarcais. Uma das consequências da opressão feminina é a ausência de poder das mulheres para impor sua vontade  sexual. Muitas mulheres são incapazes física e psicologicamente, de recusar sexo aos seus parceiros masculinos. Por outro lado o prestígio social masculino está associado à capacidade reprodutiva, ao poder sexual e a virilidade. (Di Ciommo p. 77)
        Racismo e opressão: a opressão sobre as mulheres no que se refere a liberdade reprodutiva se intensifica entre os negros, pobres e pertencentes ao Terceiro Mundo. Devido as pressões econômicas as crianças são vistas como uma força de trabalho.
        Fatores culturais: as normas culturais podem ter grande poder sobre a aceitação ou não de métodos contraceptivos. 
        Percebemos a relação ambientalismo e feminismo. Além disso, passaremos a analisar a contribuição da mulher na educação ambiental.
        É sabido por todos que a sobrevivência da humanidade e das diversas espécies animais e vegetais faz-se necessário a conscientização e mudanças de atitudes em todas as áreas científicas, culturais, econômicas e políticas.
        Estamos em um momento no qual o nosso pensamento, nossos pensamentos e nossos valores passam por um processo de revisão diante das tendências que valorizam a cooperação, a conservação a qualidade e a associação.
        A corrente ecofeminista pretende refutar as formas de submissão aos padrões de um sistema que levou em consideração “o progresso econômico e tecnológico ilimitado, onde os valores patriarcalistas imperaram por muito tempo”. (1999, p.19)
        Além dos motivos citados anteriormente o que hoje leva a aproximação entre feminismo e ambientalismo é a busca da qualidade de vida. Todos as políticas de educação ambiental perpassa pela mulher e as crianças. Independentemente da classe social a educação dos filhos majoritariamente pertence a mulher. A mulher influencia diretamente nas mudanças de hábitos. É ela que escolhe o que comprar, oque comer, como preparar, etc. Por outro lado, ela não decidi como se deve explorar a natureza ou produzir um alimento. (ex. Os cursos sobre separação do lixo é para mulheres, e isso implica em mais trabalho para ela)
        O ecofeminismo atualmente, entende que para que alcancemos uma vida ecologicamente saudável devemos buscar a harmonia dos ditos opostos. Como os “princípios masculino e feminino no pensamento, na cultura e na natureza, em um processo inverso ao que presidiu o predomínio da ordem científica racional cartesiana ... O modelo proposto pelo ecofeminismo pretende incluir um relacionamento igualitário entre homens e mulheres que se reflita na partilha do trabalho doméstico e do cuidado das crianças, maior autonomia e segurança da relação com o próprio corpo e com o processo reprodutivo, maior possibilidade de participação na esfera pública não apenas como trabalhadoras, mas como cidadãs e ativistas políticas”  (1999, p. 20)
        Finalmente podemos dizer de acordo com Morim que a sociedade deve ser vista o todo em função das partes e as partes em função do todo. Esse é o novo paradigma que se afasta do reducionismo.
        Segundo alguns ecofeministas as mulheres sempre tiveram uma consciência ecológica no sentido de preservar animais, plantas e os demais seres vivos.
        O papel da mulher não é e não pode ser idêntico ao do homem pois são seres diferentes e não há supremacia de um sobre o outro.
        No entanto o papel da mulher também não pode ser focalizado em aspectos mais desvalorizados como empregadas domésticas e apoios afetivos para sues maridos e filhos. Haja vista que o homem já não é capaz de ser o único provedor da casa.
        De acordo com Celia Regina algumas mulheres tiveram a oportunidade de desempenharem o seu real papel na sociedade. No momento de pós-guerra por volta da década de sessenta e setenta as mulheres “ tiveram o papel de serem a Voz do coração, do amor, da consciência, compaixão, sensibilidade, sensualidade, natureza, percepção intuitiva não-linear – o Outro, e foram amadas por isso, por serem o Outro que os homens buscavam e necessitavam para voltar, para retornar ao lar”. (1999, p. 79)
        Mas infelizmente isso foi cooptado pelos homens e com elas ficou apenas o que era considerado mais desvalorizado na hierarquia social. 
        Referências bibliográficas
        CIOMMO, Regina Célia Di. Ecofeminismo e Educação Ambiental. Ed. Universidade de Uberaba , São Paulo 1999.
       MORIN, Edgar. Os sete saberes          necessários a educação do futuro. São Paulo - Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2001
        SILIPRANDI, Emma. Ecofeminismo: Contribuições e limites para a abordagem de políticas ambientais. Agroel. E Desenv. Rur. Sustent., Porto Alegre, v. 1, n1, jan./mar.2000.

              

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Descartes e Husserl: encontros e desencontros do ego cogito


Este  trabalho investiga no pensamento de Husserl e  Descartes, os desencontros e as convergências da idéia do ego cogito. E, sobretudo argumenta que o principal em Husserl é o novo modo de percepção do mundo. Na introdução das Meditações Cartesianas, Husserl referenda a importância de Descartes e o apóia no desejo de uma filosofia  rigorosa. Mas se perante a academia francesa, afirma ser um “quase” neocartesiano. Na obra Idéias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica, não parece tão tributário a Descartes, mas talvez, entenda que o francês é que deveria tributos a ele. Pois todos os filósofos modernos pretenderam construir a ciência rigorosa. Nota-se que Descartes foi um entre outros nessa busca. Então Husserl se declara o ápice da modernidade, por ter levado adiante essa tarefa, a saber, a fenomenologia. Sustenta-se que o austríaco difere-se menos pela originalidade dos conceitos e mais pelo novo modo de percepção do mundo. Em parte isso pode ser mais bem compreendido a luz da visão científica contemporânea a cada um. Como diz Bachelard, não é a razão filosófica que doma a ciência, mas sim a ciência que instrui a razão. De outro modo Ortega y Gasset diz, eu sou eu e as minhas circunstâncias. Em parte, a dúvida cartesiana, decorre das novas descobertas científicas, do século XVII, que segundo Koyré, promoveu a destruição da idéia de um mundo acabado e ordenado e substituiu por um mundo indefinido. Tais  fatos clamam por outro modo de percepção do mundo. Assim Descartes inaugura com o ego cogito, o pensamento moderno, humanista e antropocêntrico, no sentido de que o homem está no comando e não mais deus ou o cosmos. O problema dessa percepção é a  finitude  e fragilidade do humano. Que no humanismo cartesiano transverte de uma supremacia, ao sustentar que somos dotados de razão e conduzindo-a bem, podemos conhecer. Por outro lado, as ciências dos séculos XIX e XX, representada pela teoria da relatividade podem ter impulsionado o sincrônico Husserl a retomar Descartes. Mas a grandiosidade da fenomenologia reside na idéia de transcendência na imanência. Essa forma de transcender não leva a supremacia, quer seja de deus ou do cosmo. E se conduz ao próprio homem, esse não possui preeminência. Pois a fenomenologia pretende ser a crítica de todas as ciências, mas também  de si própria, disso desprende um possível elemento de inovação husserliana. Esse argumento é clarificado quando Husserl diz que, ao olhar uma caixinha de seis lados, sempre será possível enxergarmos no máximo três lados. Na filosofia isso implica que a transcendência na imanência husserliana não leva a onisciência, ao saber absoluto. Pois compreende que todo visível apresenta-se sob um fundo invisível. Enfim, a resistência da fenomenologia está em sua brandura diante do conhecimento.

Palavras-chave: ego cogito. Novo modo de percepção do mundo.  Modernidade. Fenomenologia. Transcendência na imanência.
Ana Souto