sexta-feira, 3 de agosto de 2012

sábado, 2 de junho de 2012

10 motivos para namorar uma filósofa!


10 motivos para namorar um filósofo.
Se você conhece alguém que estudou Filosofia, tenha certeza. Esse é um sujeito desprendido de bens materiais, é agregador, ávido a sempre aprender algo novo, questionador, bem humorado e não tem um pingo de inveja do amigo que cursa Direito.

Se você conhece alguma FILÓSOFO, chegue junto, pois ele é diferenciado.

1.           Nunca falta assunto.
Filósofos sempre tem algo pra dizer, é legal quando você tem um “figura” do seu lado que tem a mente ampla para as mais diferentes conversas, assuntos, papos, e uma opinião criteriosa daquilo, ele nunca terá problemas em ser “social” mesmo que seja tímido, tem papo pra tudo (até por que você não entenderá tudo).

Obs.: Só tome cuidado nos assuntos escolhidos no jantar com a família, ele pode “infezar” todo mundo.

2.           Dificilmente julga sua família, amigos, etc...

Estudamos todos os tipos de civilizações, épocas, pensadores e formas de relacionamento, então é mais fácil a gente se surpreender com eventos naturais óbvios do que com os “complexos” seres humanos, pra estudar todo tipo de forma de vida de ser humano é necessário tentar compreender aquele estilo de vida.

Também jamais irá julgar você pela aparência, ainda mais se ele for fã do Schiller ou tenha se formado em Estética.

Então, por conseqüência quebramos preconceitos, se você namora um filósofo fica tranqüila quanto aquele primo anti-cristo, aquele amigo esquisito, normalmente nunca será julgado, agora quanto a parte de tirar sarro, eu não garanto, afinal todo bom pensador é um pouco sarcástico.

3.           Toda regra imposta ao filósofo normalmente será ignorada ou minimizada.

Então se sua preocupação era quando ou a onde vai ser o casamento, se foi “crismada” ou não,que seja, pro filósofo isso é o de menos, ele se importa com tudo, menos com estereótipos, isso se ele não tiver uma alegria a católicos ou protestantes fanáticos , então naturalmente o importante é que a união dê certo, então ele fará de tudo para que a união dê certo mesmo e dificilmente irá se importar com opinião dos demais.


4.           DR (São raras, mas afinal tem que ter).    

Então pode contar com ele na hora de jogar na roda aquele assunto difícil, aquela lavação de roupa suja, normalmente ele vai ser cauteloso com as palavras, a não ser que você tenha testado demais o santo dele, aí eu já não garanto.

5.           Você será trocado. Mais fique tranquilo.

Será no máximo por um livro, palestra ou conferência.

6.           No Natal, aniversário, dia dos namorados, etc, você não terá problemas em presenteá-lo.

Você sabe que você der aquele livro que ele tava querendo DAQUELE AUTOR       que ele adora provavelmente ele vai ter um orgasmo ideológico e te levar pra jantar fora. Ou então dê uma estatuazinha do Pensador, ou do deus Osíris, ou de Atena, qualquer coisa relacionada a mitologia que vai ter um ar de “uma pessoa que ama sabedoria mora por aqui” também é legal.

7.           Ele poderá ter pose de nerd mas isso não quer dizer que seja um.

E principalmente não quer dizer que ele seja certinho, quanto mais se estuda a humanidade, menos afim de seguir os “padrões da sociedade” você fica, ele pode ser um capeta, mas tem aquela cara de pessoa certinha e esforçada, o que poupa explicações, e ele sabe muito bem o que é ridículo para a sociedade e vai ter poupar de certas vergonhas alheias.


8.           Cultura

Nele sempre vai ter uma programação divertida, diferente, prazerosa para fazerem num final de semana, ir à um restaurante japonês, um café, uma exposição de arte, teatro, noite de gastronomia ou degustação de vinhos, uma ida à nova livraria, cinema onde a trilha sonora não são tiros e explosões. Acredite, seus pais sempre vão elogiar o gosto deles, mesmo quando não curtem as mesmas coisas (ex: uma conferencia sobre capital simbólico e contextualização do problema da existência e da ética na contemporaneidade).

9.           Felicidade continua

Não se preocupe com esse estado emocional, geralmente os filósofos são ociosamente felizes e de bem consigo mesmo, o que vai lhe poupar meses em terapia de casal e não vai precisar ler livros de auto ajuda.

10.        Ele pode parecer revoltado, anarquista, apartidário, antipatriota, mas no fundo ele só quer o bem de todos.

Então você jamais estará do lado de uma pessoa individualista, pois como estudante de humanas ele sempre pensará no todo e não somente em si mesmo. Não sabe em quem votar na eleição, pede um palpite pra ele! Mesmo eles são bem críticos nas escolhas políticas



sábado, 24 de março de 2012

QUEM É O PROFESSOR QUE ATUA NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES? FORMAÇÃO E A PROFISSIONALIZAÇÃO DOCENTE UNIVERSITÁRIO



O tema formação de professores no contexto atual está recebendo a cada ano, mais pesquisadores, interessados em desvendar os mitos, desafios e paradoxos da docência no ensino infantil, fundamental e médio. Questões como a autonomia do professor, o professor reflexivo, a profissionalização docente a formação pedagógica dentre outras tantas vertentes, preenchem espaços significativos nas bibliotecas, centros de pesquisas, órgãos municipais, estaduais e federais de ensino e pesquisa e principalmente nas universidades.
Autores de reconhecimento internacional e nacional discutem a formação de professores numa perspectiva crítica dos vários vieses que compõem a profissão docente, as concepções políticas que interferem ou consolidam sua atuação e o próprio movimento das pesquisas relacionadas a essa temática. Mas, ao aprofundarmos o olhar sobre as múltiplas facetas da formação e atuação docente, percebe-se uma lacuna significativa de teóricos e pesquisadores que ousam discorrer sobre a “formação do formador de professores”.
Essa questão sobre a formação do docente universitário é recente e ainda carece de discussões mais consistentes e transparentes. Outro aspecto que ainda é intocável é justamente como acontece a profissionalização do professor universitário e sua socialização no espaço acadêmico. Estas inquietações são explicitadas mesmo que direta ou indiretamente por alguns teóricos que farão parte deste artigo tais como: Pimenta; Guimarães; Perrenoud; Nóvoa; Shön; Costa; Cunha; dentre outros.
No intento de percorrer um caminho sistematizado iniciarei apresentando uma breve gênese histórica da formação dos primeiros docentes universitários no Brasil, a seguir traçarei um diálogo com alguns teóricos contemporâneos, a fim de subsidiar uma fundamentação para minhas inquietações sobre quem forma o docente universitário e como acontece sua profissionalização docente. Finalizarei mostrando o quadro atual desta formação dialogando com minha própria experiência como docente universitária.

O PROFESSOR UNIVERSITÁRIO NO BRASIL: BREVE GÊNESE HISTÓRICA

O registro do primeiro estabelecimento de ensino superior no Brasil se deu na Bahia que  era sede  do governo geral e   foi fundado pelos jesuítas em 1550.  Neste período a finalidade  dos jesuítas  não era exclusivamente a formação de sacerdotes  apesar de ser também oferecido nesses colégios o ensino das primeiras letras e o ensino secundário. Em alguns colégios, era acrescentado o ensino superior em Artes e Teologia com duração de três anos. 
Neste período havia escassez de recursos docentes, mas  não há registro específico sobre  a formação dos profissionais de ensino  que atuavam nestas instâncias formadoras. Portugal enfrentou grande dificuldade em enviar para o Brasil,   docentes para atuarem neste nível de ensino, forçando, portanto, segundo Cunha (2003) a formação de intelectuais crioulos e  mestiços para o exercício  refinado da  dominação, o que no Brasil podia ser enfrentado apenas pelos religiosos em sua pregação ( p. 153 ).
Apesar de estas instituições existirem no período supracitado,  as mesmas não influenciou na criação  das escolas superiores que surgiram por necessidades específicas da elite da corte  no período da transferência  da sede do poder português para o Brasil. Na verdade o modelo herdado da colônia impulsionava modificações no ensino superior  já que neste período de transição de governo havia resquícios da política educacional napoleônica e de ideais revolucionários franceses. 
Em meados de 1817, D.João VI não criou universidades,  mas criou cátedras[1] isoladas de ensino superior a fim de formarem profissionais imitando assim o país inimigo[2]. Quem atuava nestas cátedras era apenas um professor que ensinava com seus próprios recursos e metodologia e em locais improvisados. As primeiras cátedras aconteceram na Bahia e Rio de Janeiro  com o curso de medicina, e em 1808 no próprio Rio de Janeiro, o curso de engenharia. Em 1827 criaram-se os cursos jurídicos em  São Paulo e em Olinda, completando a tríade dos cursos profissionais superiores. Medicina, Engenharia e Direito. De acordo com Cunha

Essas eram unidades de ensino de extrema simplicidade, constituindo num professor que com seus próprios meios ensinava seus alunos em locais improvisados. Foram as escolas, as academias e as faculdades, surgidas mais tarde, a partir das cátedras isoladas, as unidades de ensino superior que possuíam uma direção especializada, programas sistematizados e organizados conforme seriação preestabelecida, funcionários não-docentes, meios de ensino e locais próprios ( p. 154).

Percebe-se que a formação e atuação docente nestas primeiras instituições superiores ficavam a cargo dos militares, engenheiros, etc e aos profissionais que possuíssem determinadas técnicas ou habilidades específicas. Bom exemplo disso se deu no ensino de arte  neste período com a implantação da academia de Belas-Artes no Rio de Janeiro por D. João VI. Os professores que atuaram nesta escola superior foram convidados nas cortes européias ou mesmo aqui no Brasil, apenas por dominarem determinadas técnicas ou habilidades específicas de pintura. Conforme cita Barbosa

... Alexander Van Humboldt ( 1769-1857), naturalista alemão que estivera no Brasil, recebeu do embaixador de Portugal na França a incumbência de contactar  artistas  e artífices franceses para organizar o ensino das Belas-Artes no Brasil e uma pinacoteca. ( BARBOSA, 2005, p.17).

A fundação das primeiras instâncias de ensino superior no país aconteceu bem antes de se organizar o ensino primário e secundário, porque se achava segundo Barbosa (2005) que este era a fonte de formação e renovação do sistema de ensino em geral como um todo. Havia até um argumento citado por um senador na época (1870) que dizia “o ensino superior é fonte do ensino primário e que é a universidade que faz a escola”. (Souza apud Barbosa, 2005, p. 15). Claro  que pelos relatos históricos priorizou-se o ensino superior como uma forma de defender os interesses do reinado e império, e como forma de preparar uma   elite que defendesse a colônia de possíveis ações culturalmente invasoras. Barbosa defende essas argumentações dizendo

É fácil, portanto entender porque as primeiras instituições de ensino foram escolas militares, os cursos médicos  e a Academia  Imperial de Belas-Artes durante o reinado (Barbosa, 2005, p.16).

Outra autora que comenta o propósito das primeiras unidades de ensino superior é Aranha (2006) que aponta que a instalação desses cursos ligava-se  intimamente à defesa militar da colônia  e ao atendimento dos interesses da família real aqui sediada. p. 226.
Nessa multiplicação de faculdades a tríade – engenharia, medicina, direito – recebeu novas escolas como a de odontologia, arquitetura, jornalismo, filosofia, economia, serviço social, ciências e letras, ficando no período imperial à cargo do ministro do Império nomear os catedráticos, os diretores e os currículos de todos os cursos. A formação dos docentes que atuavam ou que eram nomeados pelo então ministro do Império não era preocupante até então,  pois  segundo Aranha

O descaso pelo preparo do mestre fazia sentido em uma sociedade não comprometida em priorizar a educação elementar. Além disso, prevalecia a tradição pragmática de acolher professores sem formação, a partir do pressuposto de que não havia necessidade de nenhum método pedagógico específico. ( Aranha, 2006, p. 227). 

Somente no período de 1835 no intento de melhorar a formação dos mestres, foram criadas as escolas normais que, aliás, funcionava precariamente com um só professor – sem, contudo, haver conhecimento de qual era a formação deste docente - e pouquíssimos alunos não durando muito tempo seu funcionamento.  Inúmeras outras escolas normais foram fundadas no país, mas, segundo Aranha ( 2006)  seu funcionamento era instável e considerado como “plantas exóticas [que] nascem e morrem quase no mesmo dia”. p. 227
O próprio governo na época em questão criticou essa tendência, mas exigiu que essas escolas preparassem e ensinassem os mestres a  aplicarem o método “lancasteriano do ensino mútuo”[3]
 Apesar das imposições decretadas pelas autoridades daquela época segundo Aranha

A distância entre o discurso, que valorizava a profissão docente, e sua prática efetiva, porque o próprio governo pagava mal  e não oferecia adequado apoio didático às escolas. Além disso,  selecionava os mestres em concursos e exames que dispensavam a formação profissional. (Aranha, 2006, p. 227).

O desinteresse pelas questões educacionais possui raízes muito profundas que aparentemente são vislumbradas ainda hoje em algumas regiões e em  gestões de governos contemporâneos. Se nos concursos no período a cima citado  dispensava-se a formação profissional, a única cobrança exigida era a de que o candidato ao cargo de professor deveria apenas mostrar que;  lia corretamente, tinha esmero caligráfico, sabia efetuar as quatro operações  fundamentais até mesmo com alguns erros e sem uma necessidade de aprofundamento  da parte teórica. Outra cobrança para tornar-se mestre era a de que em religião o candidato deveria recitar orações de cor e conhecer alguns princípios e doutrinas da igreja. Segundo Aranha

Outra causa que agia contra a formação adequada de mestres era o costume de nomear funcionários públicos sem concurso, devido à troca de apoio, forma de clientelismo que sempre existiu - e continua existindo - no Brasil dos laços de família e dos favores que estimulam a prática de nepotismo e protecionismo. (Aranha, 2006, p. 227).

Mesmo com esses impasses governamentais e com a expansão do ensino superior, com a criação das faculdades citadas anteriormente,  a defesa da liberdade de ensino foi ganhando adeptos, mas, com divergências em relação à criação de uma universidade. Para os liberais essa criação seria uma  importante tarefa no campo educativo apesar de precária e inexistente conforme Cunha ( 2003). Já para os positivistas essa era uma questão que comprometia o conhecimento metafísico, que a ciência estava destinada a substituir. Por essa razão eles faziam oposição violenta à  criação da universidade.
No  período da república, em meados de 1889 com a criação da Constituição promulgada em 1891, muitos conflitos surgiram. Dentre eles destaca-se novos interesses da burguesia cafeeira, aumentando a procura por educação secundária e superior. Nessas instâncias o ensino profissional se fazia necessário para o bom desempenho das funções próprias. Foi um momento histórico de facilitação para o ingresso ao ensino superior, vindo a aumentar o número de 27 escolas superiores  entre 1891 e 1910. Com esse aumento de instâncias de ensino superior e a demanda de ingressos nos cursos abertos, necessitou-se a contratação de mais professores para atuarem  nesse segmento de ensino,  mas, não há relato explícito quanto a formação destes profissionais, apesar de ainda serem escolhidos  neste ínterim pelo governo,  os diretores.
Em 1901 tentou-se criar a 1º Universidade no Brasil. Isso aconteceu em Manaus devido à prosperidade advinda da exploração  da borracha, mas, com a queda nessa exploração, em 1926, as portas dessa universidade se fecharam reabrindo apenas em 1962 incorporada à Universidade do Amazonas. Novamente a preocupação com os profissionais de ensino e sua formação para atuarem nessas instâncias ficou relegada a um segundo plano apesar de já haver rumores de novas perspectivas de contratação de docentes capacitados para atuarem nessas inovações educacionais formativas. 
Houve a tentativa de se criar novas universidades tais como: Universidade de São Paulo, universidade no Paraná e universidade em Minas Gerais,  mas  essas instituições universitárias nascentes foram  bastante débeis  acarretando a dissolução delas em 1917. A universidade  do Rio de Janeiro que assumiu o status de universidade em 1920, foi a primeira instituição de ensino superior  autorizada legalmente pelo presidente da república  por meio do congresso nacional. Os profissionais que atuavam nessa universidade eram os descendentes das cátedras criadas em 1808 e 1810 (conforme citado anteriormente) e os diretores das faculdades que compunham essa universidade, bem como o reitor da mesma, continuavam sendo nomeados pelo presidente da República.
No período da ditadura militar ou na era Vargas, uma terceira instituição universitária foi instituída no Rio Grande do Sul   em 1927, só que apenas em 1934 recebeu o status de universidade. Essa instituição recebeu o patrocínio de uma baronesa que autorizou a  contratação de  50  professores estrangeiros principalmente alemães. Não há registro da “formação” desses docentes importados para atuarem em nossas universidades.  Neste período importantes transformações aconteceram contribuindo não apenas para o crescimento da autonomia administrativa, econômica e didática nas universidades, mas, também para a elaboração de estatutos gerais universitários. Dentre eles destacam-se: a promulgação do decreto 19.851, em 11 de abril de 1931 denominado de estatuto das universidades brasileiras concomitantemente acontece a  criação do Ministério  da Educação.  Destaca-se nesta promulgação  algo relacionado à formação ou à qualificação  docente que atuaria nestes espaços de ensino. Cunha destaca que

Cada faculdade seria dirigida por uma congregação, integrada  pelos professores catedráticos efetivos, pelos livre-docentes em exercício de catedrático  e por um  representante  dos livre-docentes por eles eleito. Três a seis catedráticos, escolhidos pelo ministro da Educação dentre os de uma lista elaborada pela congregação, constituiriam o conselho técnico-administrativo de cada faculdade, seu órgão deliberativo.  O diretor da faculdade seria, escolhido pelo Ministro dentre uma lista de professores catedráticos elaborada pela congregação e pelo  conselho universitário, conjuntamente. (CUNHA, 2003.p. 165).

Em 1934, criou-se por um decreto estadual a universidade de São Paulo. Esse foi um marco importante no seio do ensino superior já que neste ínterim o instituto de educação foi promovido à categoria de escola superior passando a se chamar Faculdade de Educação e essa seria o centro de formação de professores para o ensino secundário.  Outras faculdades foram criadas tais como: Filosofia, Ciências e Letras, Ciências Econômicas e Comerciais e a  Escola de Belas Artes. Para compor o quadro docente dessas faculdades foram contratados 13 professores europeus dentre eles: Alemães, italianos e franceses. O registro da formação destes docentes de acordo com Cunha (2003 ) era de alta qualificação... e  desde o início de seu funcionamento propiciou condições para que se formassem um novo modelo de docente-pesquisador (p.173),   já que estes vieram especificamente  para atuarem na universidade. O número de professores estrangeiros chegou a 45 nestas unidades acadêmicas, mas em 1942 esse número chegou a 22 professores estrangeiros. É interessante notar,  como a questão da formação do “docente universitário” não era  uma vertente prioritária para  o ensino no 3º grau. Este  é um espaço de formação profissional em todos os segmentos da sociedade, mas,  com a criação desses novos cursos e com a chegada desses novos professores com qualificação de pesquisadores, ampliaram-se as expectativas de discentes interessados em se dedicar à pesquisa e ao magistério superior.
Nas décadas de 20 e 30 a universidade brasileira foi criticada por professores do ensino superior pela estreiteza dos cursos profissionais ministrados no país em comparação com as práticas mais abertas realizadas e outros paises.  Essa brecha impulsionou mais criticas agora realizada pelos estudantes  solicitando a reforma universitária o que  acarretou  a formação da União Nacional dos Estudantes – UNE. Nesse momento histórico entidades estudantis reivindicavam reformas, e inovações universitárias. Dessa feita, em 1938, houve o 2º Congresso Nacional dos Estudantes cujo tema girava em torno não apenas da consolidação da UNE, como também propunha a universidade aberta a todos;  a diminuição das taxas elevadíssimas (que aliás,  selecionava pelo nível de renda em lugar da capacidade científica ); a liberdade de imprensa, de critica, de pensamento e de cátedra;  inovações no seio da universidade tais como; rompimento de dependência do estado; eleições de reitores e diretores das unidades pelo corpo docente e discente, e o que ofereceu um avanço significativo na questão docente era a reivindicação de elaboração dos currículos por comissões de professores especializados e representantes estudantis, sem contar com a solicitação de aproveitamento de estudantes mais capacitados como monitores e estagiários em cargos específicos que seriam elaborados ou elencados.
Abriu-se com essas reivindicações e propostas de reforma, espaço    para críticas oportunizando a adesão a partir de 1960, de professores e pesquisadores. Essa adesão já aponta para a formação do profissional do ensino superior abrindo um forte indício de que esse  docente universitário,  não possuía apenas o titulo de técnico como nas décadas anteriores,  mas com o pensamento já voltado para a pesquisa, ensino e extensão, ou seja, para a formação  especializada. Devido às transformações ocorridas nestas décadas de 50 e 60,  no ensino secundário,  com a  criação do ensino dual, oferecendo a educação profissionalizante às classes menos favorecidas e ensino propedêutico às elites condutoras, a demanda de  ingressos nos cursos superiores   aumentou. Isso  obrigou o governo federal a assumir a responsabilidade pelo ensino superior gratuito em nível federal e a assumir a federalização de faculdades estaduais e privadas, sendo custeadas e controladas pelo Ministério da Educação. Nesse ínterim  os professores catedráticos desses estabelecimentos efetivaram-se e igualaram-se aos professores da Universidade do Brasil tanto na remuneração como nos privilégios. Novamente os requisitos prévios para a formação desses profissionais contratados eram as catedráticas citadas anteriormente,  mas com inovações de formação com atenção especial ao ensino-pesquisa. Bom exemplo aconteceu com a criação do Instituto Tecnológico da Aeronáutica – ITA – em 1947,  o que significou de grande avanço para o ensino superior pelas transformações acadêmicas.    De acordo com Cunha

Suas principais características inovadoras foram firmadas pela ausência das cátedras vitalícias, pela organização departamental, pela pós-graduação, pelo regime de dedicação exclusiva  dos docentes ao ensino e à pesquisa, pelo currículo flexível. (Cunha,2003, p.173).

Foram necessárias várias décadas, para que as inovações em torno da  formação do docente universitário acontecessem. Percebe-se pela história que o processo se deu lentamente,  mas, segundo  Cunha com a fundação da Universidade de São Paulo em 1934[...]

 [...] especialmente de sua faculdade de filosofia, ciências e letras , que inclui professores estrangeiros de alta qualificação em seu corpo docente, desde o inicio de seu funcionamento propiciou condições para que se formasse um novo modelo de docente-pesquisador, que veio a representar destacado papel no processo de institucionalização do campo cientifico e tecnológico brasileiro. Matemáticos, físicos, químicos, biólogos etc, formavam alunos interessados em se dedicar à pesquisa e ao magistério superior, para o que eram enviados à Europa  e aos Estados Unidos, onde estagiariam junto aos grandes nomes da ciência da época. (Cunha, 2003, p. 173 e 174).

Diante desse novo pensamento universitário e com as dificuldades enfrentadas por alguns pesquisadores  um grupo de cientistas formou em 1948, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC –. Essa sociedade conforme esclarece Cunha (2003) tinha como meta principal a difusão da ciência com o intuito de buscar apoio do estado e da sociedade, a promoção do intercambio entre cientistas e a luta pela verdadeira ciência e liberdade de pesquisa. (p. 174).  Concomitantemente no viés destas transformações surgiu a Universidade de Brasília com um novo formato institucional, mais moderno diferenciando-se do formato das outras universidades do país que era do regime  autárquico[4] , enquanto que a Universidade de Brasília foi criada no regime fundacional e apoiada por duas agencias governamentais: CNPq e Capes, criadas em 1951.
A  década de 60  revolucionou o ensino superior não apenas pelas inovações e reformas elencadas anteriormente, mas,  pelas transformações no  âmbito  da formação profissional, na modernização do ensino superior e pela quebra de alguns paradigmas estabelecidos nas décadas anteriores tais como aponta Cunha (2003): quebra de barreiras entre faculdades da mesma universidade; criação de institutos de pesquisa: trabalho docente e discente em tempo integral; extinção da cátedra vitalícia; estruturação da carreira docente a partir de cursos de pós-graduação, de tempo de serviço e de realizações profissionais; remuneração para os professores e assistência aos estudantes, como bolsas, alimentação, alojamento e trabalho remunerado dentro da universidade; incentivo à pesquisa cientifica, artística  e filosófica. (p. 176 ). 
Mesmo com essas inovações e mudanças, novas reformas reivindicadas por estudantes e professores converteram-se em benefícios para neutralizar o poder das cúpulas dirigentes da universidade e redefinindo apoio para a modernização do ensino superior. No campo da formação docente havia professores que se sentiam afligidos pela dominação dos catedráticos, o que com os movimentos docentes e discentes  propunha-se  que a promoção dos professores  fosse decidida por uma comissão especial. Nesta propunha-se que  houvesse a participação de alunos e profissionais de ensino de cada universidade e participação deste também nas comissões e conselhos.  Essas reivindicações refletiam o discurso da época já que essa foi uma década de intensas lutas e de inúmeros movimentos em favor da conscientização popular dos seus direitos sociais, apesar de ainda persistirem as desigualdades sociais e educacionais. Depois do golpe militar de 1964 a redefinição pela reforma  universitária passou a ter apoio apenas a título de modernização do ensino superior.  Quatro anos após o golpe, impulsionados pela repressão político-ideológica, atos constitucionais e a Constituição de 1967  foram baixados pelo governo militar oportunizando vias para a extinção do regime das cátedras. Esse ato determinou mudanças nas universidades ameaçando professores e estudantes à expulsão da universidade caso fossem acusados ou culpabilizados por prática de atividades ou ações ilícitas ao regime em questão.
Apesar de ter sido um período distinto na história da universidade no Brasil esse também foi um período marcante na questão da formação da universidade brasileira. Em meio às intervenções houve a aposentadoria forçada de professores mais experientes e impedimento de ingresso dos docentes mais jovens de atuarem ou progredirem na carreira, dentre outros fatores de mudança que ocorreram nesse ínterim. Concomitantemente com essas imposições militares, novas alianças se formaram entre os docentes mais experientes  fazendo com que as agencias de fomento se ampliassem em muito os recursos à pós-graduação e  à ampliação e construção de prédios e laboratórios. Ironicamente conforme Cunha ( 2003)  a profissão docente foi institucionalizada mediante  o regime de tempo integral  e de dedicação exclusiva e a ampliação das instituições públicas aumentaram significativamente  os estudantes matriculados ( p. 179). De acordo com Cunha
Enquanto o regime das cátedras caminhava para a extinção, duas medidas foram promulgadas em 1965, ambas para a institucionalização da carreira docente. A Lei 4.881-A  definiu,  pela primeira vez no país, um Estatuto do Magistério Superior Federal. Sintonizadamente, o Conselho Federal de Educação aprovou o parecer 977 por solicitação ministerial, a fim de regulamentar os cursos de pós-graduação previstos na Lei  Diretrizes e Bases da Educação Nacional, mas ainda não sujeitos a critérios de credenciamento.( Cunha, 2003. p. 185).

Além das já mencionadas transformações e retrocessos  ocorridos nos anos 60, nos anos 80 com a queda do regime militar,  novas vertentes surgiram protagonizando o panorama das transformações universitárias no país. No viés da docência universitária que é o foco desta pesquisa  segundo Cunha

Os professores e funcionários técnico-administrativos criaram suas próprias entidades sindicais, desenvolvendo uma atuação política sem precedentes; os programas de pós-graduação haviam atingido um padrão de ensino e de pesquisa que permitia desenvolver uma crítica competente das políticas governamentais em diferentes campos, como na pesquisa nuclear e na educação básica (Cunha, 2003. p. 179 ).

Impulsionados pelas inovações sindicais e com conscientização política mais aguçada à importância da formação docente, determinações indicadas no decreto-lei 53/66,  obrigou a criação de uma unidade,  voltada para a formação de professores para o ensino secundário e de especialistas em questões pedagógicas, ou seja, a Faculdade de Educação. Neste ínterim histórico acompanhado de outras transformações e decretos destacam-se os critérios para atuação do professor universitário tais como: número proporcional de professores com pós–graduação e tempo integral, comprovação de patrimônio próprio e de condições financeiras por parte das entidades mantenedoras das universidades, além de instalações físicas apropriadas e acervo específico para a implantação das bibliotecas. É interessante notar  que com essas exigências no decreto supra citados, alguns anos depois com um novo decreto só que agora o 3/83 do Conselho Federal de Educação eliminavam-se todas as exigências anteriormente regulamentadas em relação ao corpo docente. A referência à formação deste profissional que atuava no ensino superior passou a ser a uma genérica qualificação e a omissão do tempo da utilização do contrato dos docentes. Percebe-se que o discurso ora oscila para facilitar ora para dificultar a criação de universidades. Quanto à atuação e formação docente apenas a referência à qualificação, torna-se redundante num universo que necessita de modificações urgentíssimas e de transição de paradigmas engessados desde o período do império.
Vale lembrar que o Estatuto do Magistério Federal citado a cima promoveu importantes  avanços na formação e qualificação docente no período de sua promulgação,  influenciando na expansão qualitativa do ensino superior, no desenvolvimento da pesquisa científica e formação adequada de pesquisadores e assegurando as necessidades do desenvolvimento   nacional. No quesito contratação do professor universitário as mudanças foram radicais e benéficas para o ensino superior. Ressalta-se aqui que a livre-docência caiu em desuso,  mas com ressalvas à algumas universidades paulistas que consideram a livre-docência um grau acadêmico, obtido por concurso após o  doutorado, que é condição necessária para se tornar professor adjunto.( Cunha, 2003, p. 185 ).
A exigência vigente a partir  década de 60 e 70 para a contratação de professores para atuarem nas universidades federais,  restringia-se a concurso público subdividindo-se em quatro categorias distintas quais sejam: Professor auxiliar, titularidade exigida graduação. Professor assistente, obrigatoriamente com título de mestre  e professor adjunto titularidade de doutor. Vê-se que a implantação dos cursos de pós-graduação foi essencial para o sucesso e renovação do ensino e pesquisa cuja proposta era que eles fossem indissociáveis e que essa articulação à carreira docente, produziu mudanças qualitativas do magistério universitário em todas as categorias de universidades. Federais, Estaduais ou Privadas.
Na década de 90 destacam-se  as reformas instituídas à universidade com leis específicas através da  LDB/96,  mas,  caracterizadas por sua produção acadêmica e científica e por seu corpo docente qualificado em programas de pós-graduação. A proporção de docentes especializados ampliou-se a pelo menos um terço do quadro com a mesma quantidade contratada em tempo integral. Neste período introduziu-se a avaliação institucional  dos programas de pós-graduação e de cursos de  graduação, a concepção da autonomia didático-científica, disciplinar, administrativa, financeira e funcional. Outras inovações surgidas  neste momento histórico,  aconteceram no regime jurídico que criou a Abruc – Associação Nacional das Universidades Comunitárias – e a Anup – Associação Nacional das Universidades Particulares, contribuindo para a expansão e regulamentação de instituições públicas e privadas. Fato que merece destaque  nesta década
é  justamente pela expansão de  universidades e faculdades públicas  com melhores condições de remuneração. 
Diante deste quadro pintado tendo como primeiro plano da obra  a trajetória da criação das universidades e num segundo plano desta tela as transformações sucedidas na formação do docente que atua ou atuava  nestas instituições educacionais, percebe-se que ainda há muito a ser feito para que as políticas educacionais para a formação do docente universitário sejam direcionadas ou poderíamos até dizer,  redirecionadas já que conforme Pimenta

A par da questão legal, a docência universitária constitui tema relevante em diferentes países e no nosso, se se admite a necessidade de as instituições de nível superior desenvolverem programas de preparação de seus professores para o exercício da docência. Preparo este que os ponha a par da problemática e da complexidade do ensinar e do formar no ensino superior; do formar profissionais, do formar pesquisadores e do formar professores.    ( Pimenta, 2002, p. 24 ).

A  autora propõe que para que haja a valorização da educação de qualidade,  far-se-á  necessário  investir na docência universitária e na defesa desse espaço como local de formação de professores sem, no entanto,  correr o risco de reduzir a docência a competências  ou à redução da mesma a técnicas.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. História da educação e da pedagogia: geral e Brasil. São Paulo: Moderna, 2006.

BARBOSA, Ana Mae. Arte Educação no Brasil . São Paulo. ED. Perspectiva. 2005.

CUNHA, Luiz Antonio. Ensino Superior e Universidade no Brasil in: 
LOPES, Eliane Marta Teixeira, et al. (org.) 500 anos de educação no Brasil. Belo Horizante: Autêntica, 2003.

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NÓVOA, Antônio. O passado e o presente dos professores. Em: Profissão Professor. NÓVOA, Antônio ( org.). Porto, Porto Editora, 1995.

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[1] Instituições isoladas mantidas pelo Estado.
[2] O país inimigo nesta conjuntura política era a França já que o pensamento educacional da burguesia francesa era o que prevalecia. Neste ínterim político Marquês de Pombal “déspota esclarecido”, realizou parte dos ideais revolucionários franceses no campo do ensino público no país.
[3] È um sistema de ensino de monitoria, em que o professor não ensina todos os alunos, mas prepara apenas os melhores, que por sua vez atendem grupos de colegas. A divisa de Lancaster era: “Um só mestre para mil alunos”.  A disciplina era rígida e esse processo barateava os custos mas,  com resultados não tão significativos como se pode imaginar. Aranha, 2006 p. 203
[4] Regime enrijecido por numerosos regulamentos e normas padronizadoras.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Liberdade de imprensa - uma ameaça a democracia

A cada argumento que leio acerca da limitação ou não da liberdade de imprensa, sinto-me atraída por um, hora por outro. Com isso podemos perceber como é belo e forte o poder da linguagem. A partir de um mesmo fato podemos fazer inúmeras interpretações. Sendo assim, como fica a questão da verdade? Se existe um fato existe uma verdade, como então seriam possíveis tantas interpretações que por vezes parece existir várias absolutamente plausíveis sob o ponto de vista lógico.
O sofista Górgias (485/380 a.C) dizia que o discurso não manifesta o objeto exterior, pelo contrário, é o objeto exterior que se manifesta no discurso”. Para este sofista a verdade não existe em si, mas na argumentação.

Caso a linguagem seja tão poderosa a ponto de não só relatar o real, mas cria-lo. As pessoas e ou instituições cujo instrumental de trabalho é a linguagem devem receber limitações, assim, como recebem todas as áreas e profissões.

Creio que o limite ao poder da imprensa, já vem a discussão tarde uma vez que já existe a censura, a do dono do meio de comunicação, dos anunciantes, do Estado que dá subvenções.

O jornalista assim  como o cidadão enquanto indivíduos  são vítimas dos donos dos meios de comunicação.  Como afirma o sociólogo Pierre Bourdieu, a televisão tem uma censura muito eficiente e camuflada, que consiste em uma perda de autonomia. Assim jornalistas e cidadãos se submetem a tirania, pois ambos não determinam o que será publicado.

Um dos argumentos mais usados em nome da defesa da liberdade de imprensa é aquele que sustenta que as pessoas têm o direito de saber, de se informarem e isso encerra e si mesmo, um dos aspectos democráticos.

Por outro lado, essa é somente uma face da democracia, mais do que direito a ter informação é direito de todo cidadão poder expressar publicamente as suas ideias. E excetuando os meios de comunicação e alguns pares de pessoas, quantos podem expressar-se publicamente de fato?

Assim sendo, sustento que em nome da democracia devemos limitar os poderes da imprensa, pois um dos princípios democráticos é o controle de todos os poderes. Em um Estado democrático qualquer poder sem limite é um risco a democracia.

Ana Souto

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012


Digressões acerca da atitude filosófica no Direito



A atitude filosófica caracteriza-se pela identificação de problemas. Resolvê-los, quiçá! Ao identificar um problema, a solução, caso venha, não tem caráter definitivo, pois a produção do conhecimento é algo constante. No entanto, a identificação de problemas tem caráter mais rigoroso e perene, isso não quer dizer que nenhum problema filosófico tenha conseguido uma resposta ao longo da história. Embora muitos filósofos defendam o contrário.

Existem dois tipos de perguntas: a pergunta questão, que consiste em perguntar, por exemplo, qual é a profundidade do oceano, ou qual o melhor caminho para chegar à Brasília. Perguntas dessa natureza têm resposta imediata, não deixa margens para discussão. Você pode facilmente e indubitavelmente, acordar acerca de um sistema métrico e emitir uma resposta a qual não suscitará maiores considerações. Pensando no Direito, se você pergunta algo específico sobre um código, uma lei ou artigo, disso sai uma resposta direta que  não permite maiores investigações. Nesse âmbito não existe possibilidade de uma investigação filosófica, dialógica ou dialética.

As perguntas desse tipo, objetivas não nos leva a um problema.[1], pois é estéril em si mesma.

Sendo assim, as perguntas que nos levam a uma investigação filosófica é de caráter radical, isto é, radical no sentido matemático, de ir a raiz do problema de sair da superficialidade, assim é caracterizada uma pergunta problema.

Pergunta problema é perguntar pela essência das coisas, das teorias, é perguntar pela causa primeira. A pergunta problema investiga os conceitos. Assim o penalista não faz uma pergunta problema ao perguntar qual é a pena, mas o faz ao perguntar o que é a pena. A segunda pergunta leva a um problema que para responder você poderá lançar mão da psicologia, da filosofia, sociologia, história etc.

Assim dentro do direito constitucional você poderá investigar, por exemplo, quais são as bases filosóficas, ideológicas que compõem o pano de fundo da Constituição? Essas bases são de que tipo? São contraditórias? A assumir um artigo não teria outro que leva a um paradoxo? Assim devemos evitar as perguntas e as respostas rasas e rápidas.

No caso do direito a vida e do direito a liberdade religiosa, são dois direitos assegurados em um mesmo documento, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que eventualmente, podem se confrontar. Para exemplificar criaremos um caso hipotético. Uma pessoa da religião Testemunha de Jeová, esta gravemente enferma, para salva-lo necessita com urgência de transfusão sanguínea. O que o médico faz? Faz a transfusão por deliberação própria, acata as determinações religiosas do paciente, solicita uma decisão judicial? Caso faça a solicitação judicial haverá tempo hábil para isso? Então o que é mais direito? A vida ou a liberdade religiosa. Para mim e para muitos deveríamos fazer a transfusão, pois entendemos que um princípio religioso dessa estirpe é nada diante da morte. Mas para quem crê nesse principio a transfusão é pior do que a morte.



Na tentativa de investigar o que justifica a pena aplicada a um delito, faremos uma análise de como é construído a ideia de penalidade do direito aplicada ao ser humano.

Sabemos que se um cachorro morde uma pessoa, esse cão poderá, eventualmente, até ser  sacrificado, no entanto, ninguém aceitará que foi realizada a justiça. Pois se espera que o dono seja punido e não o cão. Pois esse não sendo dotado de razão não pode ser julgado, ele não sabe o que é o bem e o mal, pois a sua condição existencial não permite essa distinção. Sendo assim, o que nos diferencia dos demais animais é a razão.

Historicamente a razão humana tem sido objeto de reflexão filosófica como o que nos distingue dos demais seres vivos.

Para o filósofo Platão, em sua obra A República ele elabora uma teoria de como administrar a coisa pública, para isso é feita uma análise da sociedade e, por conseguinte são estabelecidas ações que visam alcançar a cidade ideal.

Nessa busca da cidade ideal Platão fala sobre casamento, educação, ética, justiça entre outros.

Para o pensador em tela, as pessoas já nascem com conhecimentos inatos, ou seja nascemos pré-determinados. Cada um nasce para uma coisa específica, isso não implica dizer não que podemos aprender muitas coisas, mas apenas em uma coisa cada homem poderá alcançar a excelência. Para ele, existem pessoas que nascem com almas de bronze e essas devem se dedicar ao trabalho braçal, outros nascem com almas de prata cuja tarefa assemelha-se a um exército, tendo a tarefa de vigiar as demais classes. Por último, temos as pessoas com almas de ouro cuja função é pensar e governar a pólis, essa classe vive eminentemente segundo a razão.

Para Aristóteles, discípulo de Platão, existem três tipos de almas vegetativa, sensitiva e racional. A primeira consiste em uma vida mínima própria das plantas, a segunda é a primeira acrescida das sensações, próprias dos animais e por último temos a alma racional que envolve todas as outras e é acrescida da razão. Sendo assim, o que nos diferencia dos demais animais é a razão, Para o estagirita, o conceito de homem é um Zoom politikon um animal político.

Perecemos na obra Aristóteles que o problema da desigualdade social é facilmente resolvido, pois para ele algumas pessoas nascem para mandar e outras para obedecer. No entanto, esse mando será exercido pelas pessoas que vivem em maior grau na alma racional que nos diferencia dos demais seres.

Para Aristóteles, as pessoas que não vivem segundo a razão ou em um grau inferior, elas assemelham-se a qualquer outro animal como o boi ou o cavalo, a única diferença é que o homem pode desenvolver tarefas mais elaboradas.

A partir desse conceito amplamente aceito na tradição filosófica e jurídica de que o homem é um ser racional[2] Podemos sustentar que o direito se pauta nesse conceito de homem para legislar e julgar. Percebemos que a razão é a nossa excelência. Devemos considerar que no direito penal, caso alguém cometa um assassinato, como poderá não ser penalizado, excetuando legítima defesa e estado de necessidade? Provando que não estava de posse das faculdades mentais, ainda que momentaneamente. Existem várias jurisprudências que apontam isso, TPM, depressão pós-parto etc. Que levam a uma sentença diferente.

A partir dessa reflexão poderíamos pensar de maneira análoga o seguinte problema. O que justifica que a nossa legislação privilegie pessoas diplomadas com curso superior.

Se aceitarmos que a condição humana é elevada quanto maior é o grau de razão, uma pessoa nesse nível racional ao cometer um delito deveria sofrer uma sanção superior em relação as outras. Pois a sua sofisticação intelectual lhe traz uma grau maior de responsabilidade sobre suas ações.





 Ana Souto






[1]    É interessante pensar o seguinte, normalmente falamos que questões objetivas são as de múltipla escolha e subjetiva as de canetão. Na verdade, uma questão pode ser objetiva e ser de canetão. Se eu pergunto o que é a justiça em Aristóteles no livro Ética a Nicômaco. É uma resposta objetiva ele diz uma ou algumas coisas, que caso voce saia daí terá errado. Se eu pergunto qual a classe social Karl Marx defendia, por mais díspares que sejam os entendimentos sobre os escritos marxistas, só uma coisa é aceitável, ele defende a classe do proletariado.

      Sendo assim, não podemos elaborar uma pergunta subjetiva, pois subjetividade não pode ser avaliada por outrem.


[2]    É bom lembrar que o índio responde por uma legislação diferente do homem branco, porque se entende que o indígena participa de outra lógica racional. (ex. A nudez, as relações sexuais, infanticídio, etc..).


domingo, 5 de fevereiro de 2012

Seminário: Ética, cidadania e o mundo dos negócios - O quê podemos aprender com a filosofia grega


Sempre que realizamos uma investigação mais aprofundada é quase imprescindível o retorno aos gregos. Hoje faremos isso para falar de ética e cidadania no mundo dos negócios. [i]
Iniciaremos esclarecendo o termo ética, do grego, ethos.
 A língua grega é densa de significados e sentidos. Quanto ao termo ethos, poderíamos fazer um seminário somente sobre essa palavra. Mas por hora abordaremos sinteticamente três formas, seguindo o conceito de Adolfo Sánchez. Primeiro, Ethos como índole, caráter, algo inerente, inato a nós que nasce conosco. Depois ethos como hábito, costume, algo que não corresponde a uma disposição natural, mas é construído no convívio social. Esses dois sentidos não esgotam o significado total do termo, mas nos indicam um terceiro sentido especificamente humano no qual se torna possível o comportamento ético/moral. Este comportamento só é possível ao homem na medida em que sobre a sua própria natureza cria uma segunda natureza da qual faz parte a atividade moral. Esse último sentido entende-se o ethos como morada do ser. Tal morada é própria do humano. Somente referimos que um lugar é nossa morada quando estamos nesse lugar de algum modo, diuturnamente, construindo e constituindo  a cada momento como a nossa morada.
Então é mister um seminário dessa ordem, pois a ética como caráter , índole nada podemos fazer,  o ethos como hábito e costume na universidade pouco se pode fazer, mas quanto ao ethos no sentido de morada do ser , muito podemos fazer, que é essa chamamento para o debate, para a discussão fundamentada. Os filmes como Wall street, O gladiador, que foram debatidos em outros momentos desse seminário,  podem servir de trampolim para grandes discussões.
Dessa maneira percebemos que ética tem a ver com liberdade, conhecimento, discernimento, com possibilidade de escolha. A ética se pauta em três perguntinhas: POSSO? QUERO? DEVO? Assim ela é própria do homem. Eu posso falar que um homem não foi ético ao morder a orelha do seu adversário, mas não posso falar o mesmo do cavalo que faz essa mesma ação em uma disputa.
Assim exclui-se a possibilidade de dizer que alguém não é ético.  Está errado identificar o ato ético necessariamente uma pessoa comprometida com o bem.
É errado dizer que alguém não é ético, no máximo ele não compartilha da sua ética, do código de ética da empresa, da ética cristã. O nazismo, por exemplo, tinha um código de ética, e dentro desse código os nazis eram éticos ao segui-lo.
A eugenia pretendida por Hitler também foi também uma pretensão grega mais especificamente em Platão na obra A República. Ao sinalizar que o rei filósofo deveria findar com o casamento e promover as relações entre as almas de ouro, prata e bronze. E que as crianças nascidas com deficiências deveriam ser levadas para fora dos muros da cidade. (isso também se viu em Esparta)

Passemos agora ao termo cidadania. Na Grécia eram considerados cidadãos somente quem exercia participação política, quem participava da democracia, que embora tenha surgido na Grécia teve curta duração e nem era para todos. Posteriormente, o termo cidadão esteve associado ao burguês não ao povo todo. A começar pela etimologia da palavra percebemos certa discriminação originária.  A separação entre homem urbano e rural. Uma vez que o termo cidadão refere somente as pessoas que habitam a cidade. Mas cidadania esta está ligada a ideia de compromisso ativo, com a sua sociedade e o seu país.
Segundo Gilberto Dimenstein em Cidadão de papel, cidadania é o direito de ter uma ideia e poder expressa-la, é poder votar em quem quiser sem constrangimento, é processar um médico, ou qualquer outro profissional que cometa um erro contra sua saúde. É devolver um produto estragado, e receber o dinheiro de volta, é de ser negro e não ser discriminado, é de praticar uma religião sem ser perseguido, há detalhes insignificantes que que revelam o estágio de cidadania em que se encontra um povo, respeitar o sinal de transito, não jogar papel na rua, não destruir estatuas, telefones públicos por trás disso esta o respeito a coisa publica , a republica. Este respeito nos leva a responsabilidades, a escolhas, a deliberações éticas.
É comum falarmos que queremos ser livres como pássaros, na verdade os pássaros não são livres. Eles não têm escolha, somente podem agir de um modo determinado pela natureza, as andorinhas voam necessariamente em determinadas épocas e para determinados lugares.
Dessa forma percebemos a estreita ligação entre ética e cidadania.
A ética nos negócios
Quando falamos em ética nos negócios temos que pensar o que é o “negócio” em que consiste o homem de negócio. O termo Neg – ócio do grego significa aquele que nega o ócio. A sociedade grega valorizava o homem que se dedicava ao ócio. Hoje valorizamos o homem de negócio, quanto mais atividades estudos, trabalhos, vida corrida quanto mais se nega o ócio melhor são vistos socialmente.
Mas melhoramos sob o ponto de vista ético, científico, na forma de trabalho? Para responder essa questão trago o seguinte exemplo de dois filmes O gladiador e Calígula.
Parte de nossa formação cultural tais como idioma, organização política e o Direito tem raízes na cultura romana. Assim aos gregos devemos muito mas não tudo!  Qual a importância desse primórdio cultural no mundo contemporâneo tão diferenciado pelas conquistas científicas? É fato que as conquistas no campo da física, química, medicina entre outros nos fazem pertencer ao melhor dos mundos conhecidos historicamente. Todavia sob o ponto de vista da moral, estamos tal quais aos homens do Império Romano.
O fato que relembro para esta análise é o caso do antigo  prefeito da Cidade de Goiás Boadyr Veloso, (agora morto, assassinado em condições até hoje não esclarecidas) investigado pelo crime de pedofilia. Tal assunto nos faz perguntar o que leva uma pessoa a cometer ações como do caso em questão? Quais patologias envolvem tal atitude? Entretanto, mais aterrorizante do que o crime que pode ter acontecido, é o como a sociedade se relaciona com o fato. A qual tudo assistiu de forma blasé.[ii]
Esse caso nos remete a dois filmes que relatam aspectos da cultura romana O gladiador e Calígula.
Em O gladiador é mostrado o povo indo ao Coliseu para assistir  prazerosamente pessoas serem machucadas e mortas por homens e feras.
Quem proporciona tudo isso é visto como herói. Hoje essas cenas nos causam horror devido a crueldade.
Mas então vos pergunto em que consistem as festas de rodeio? Essas festas são arenas montadas para divertir utilizando animais e pessoas que são machucadas para o delírio de outras.
As pessoas vão às arenas para assistir ao espetáculo das grandes quedas e as mortes ou pelo menos a iminência delas.
Mas somos tentados a acreditar que hoje os gladiadores e os seus espetáculos não existem mais.
No filme Calígula é mostrado o imperador que usa do seu poder para extravasar os seus desejos de subjugação do outro, como a pederastia, pedofilia entre outros comportamentos.
Atualmente muitos acreditam que estamos melhores, que evoluímos. Quando vêm a baila cenas como as apresentadas nesses filmes, surge a necessidade de censura total ou parcial de acordo com a idade.
Podemos almejar alcançar um avanço moral que se aproxime das nossas conquistas científicas, pois sob o ponto de vista científico estamos indubitavelmente melhores. Embora sob o aspecto que perpassa a moral estamos tão bárbaros quanto os romanos que se divertiam e aceitavam homens da política usarem de seu poder para realizar suas transgressões sexuais.
Enfim o que podemos aprender sobre ética e cidadania nos negócios com a filosofia grega?
Podemos dizer que só é possível atingir a condição humana, não nascemos humanos, nos tornamos ao longo da vida, por meio do pensar, do agir ético, moral, na vida e nos negócios. Einstein tem uma frase emblemática, somente a moralidade das nossas ações pode nos dar a beleza e a dignidade de viver.
 Os gregos embora não tenham abarcado com a cidadania grande numero de pessoas, tentaram brilhantemente encontrar esse caminho. Cabe a nos subir nos ombros desses gigantes e dessa forma, enxergando mais longe, fazermos mais do que eles fizeram. Estamos melhores hoje sob todos os aspectos, tecnológicos, expectativa de vida etc. Mas sob o ponto de vista moral creio que não. Teorias relacionadas a medicina, a física desenvolvidas pelo gregos estão superadas, mas no que se refere a ética não estão superadas e tampouco resolvidas. Os problemas sociais permanecem. No mundo dos negócios sempre que se for tomar uma decisão faz necessário encontrar uma solução que sem prejudicar os interesses da empresa pudesse também atender aos interesses mais amplos da sociedade. Agir eticamente pode ser o diferencial de uma empresa e condição de sobrevivência no mercado. A responsabilidade social está aí nos mostrando isso. No entanto, há outro detalhe, quando eu troco um produto estragado para não sujar o nome da minha empresa no mercado, e não pelo correto em si mesmo, eu não estou a rigor agindo moralmente, mas seguindo a ética mercadológica do dinheiro. E quando a situação pesar mais para o financeiro eu deixarei de agir idoneamente.
Nenhuma empresa ou pessoa é somente boa ou má é a síndrome de Davi. E a reviravolta da história de Schindler. Davi é um grande homem, boníssimo que em um dado momento tem um deslize, se apaixona por uma mulher casada e para se livrar da culpa manda o marido dela para morrer na guerra. Schindler é um nazista que se enriquece com a exploração dos judeus e em um dado momento toma uma decisão que modifica todas suas ações anteriores.  Usa tudo que conseguiu por meio de prestação de serviços aos nazistas para salvar milhões de judeus. Desse modo a historia de que existem maças podres e ovelhas negras não procede, uma vez que ninguém é somente bom ou mau. Transitamos entre uma coisa e outra, por isso a importância da ética como ethos, no sentido não somente de caráter e habito, mas como morada do ser, aquela condição que nos torna humanos e que só pode ser alcançada por nos mesmos e por nossa constante analise, julgamento e da busca de sermos melhores sempre. Porque mais do que vantajoso ser ético nos mundo dos negócios, devemos ser éticos porque é isso que nos humaniza. Hoje com o enfraquecimento do poder de persuasão das religiões, da família, da escola, faz se ainda mais necessário essa predisposição individual de ser ético, cidadão em qualquer circunstância.

Bibliografia
SROUR, Robert Henry. Ética empresarial. Campus, Rio de Janeiro, 2000.
VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Ética, civilização brasileira, Rio de Janeiro, 2003.
PLATÂO, A República
SOUTO, Ana Kelly F. A Moral dos Romanos. Jornal Goyazes, NI - julho de 2004 – Faculdade de Direito UFG extensão - Cidade de Goiás.






[i] Texto elaborado para apresentação no Seminário:  Ética, cidadania e o mundos dos negócios - O quê podemos aprender com a filosofia grega – Faculdades Delta – Goiânia 17/01/2012

[ii] O caso Boadyr foi amplamente divulgado pela mídia, Revista Época julho2004. No dia 20 de maio de 2004 a então senadora Patrícia Sabóia, presidente da CPI da exploração sexual esteve em audiência ocorrida na catedral da cidade de Goiás no dia 20 de maio. A audiência foi realizada em função do caso Boadyr.

Ana Souto
Graduação e mestrado em filosofia, doutoranda em educação.