quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Possibilidades educativas neste mundo povoado pelas tecnologias


Esta reflexão pretende sustentar que as inquietações provocadas na sociedade devido à revolução da tecnologia, não é um advento inédito. Outras revoluções provocaram historicamente debates igualmente calorosos. Essas inquietações se devem ao temor, próprio da condição humana, diante do novo e ao desejo de ser sincrônico ao tempo.

Essa questão pode ser investigada sob vários prismas, na maioria das abordagens deste fórum, as respostas trilharam um caminho semelhante. Pois pensaram o modo de se educar com as tecnologias disponíveis, como usar as tecnologias da informação e comunicação na sala de aula, na formação dos professores. Discorreram sobre os limites desses recursos, as dificuldades dos usuários, analisaram se essas tecnologias eram eficientes, se servem ou não ao capitalismo, etc.
Essas análises são importantes e necessárias, pois as tecnologias possuem características inovadoras próprias que introduzem mudanças no padrão de comportamento da sociedade, como afirma Fernando Henrique no prefácio da obra A Sociedade em Rede. Por outro lado, essas análises tendem a um caráter profético e ideológico, ou seja, pretendem predizer o futuro.
No entanto, assim como Manuel Castells, acreditamos que o fundamental na investigação acerca da revolução das  tecnologias da informação, foi esquecido. Para ele a revolução das tecnologias da informação iniciada nos Estados Unidos aproximadamente na antepenúltima  década do século XX, é somente mais uma mudança que ocorre na sociedade, não exercendo primazia em relação as outras revoluções  ocorridas, a exemplo, da Revolução Industrial iniciada em meados do século XVIII na Inglaterra. Para este autor: “(...) a tecnologia da informação é para esta revolução o que as novas fontes de energia foram para as revoluções industriais (...)” (CASTELLS, 2008, p. 68)
No prólogo de a sociedade em rede, sustenta-se que a tecnologia marcou uma revolução na sociedade, em todas as suas esferas, economia, capitalismo, estado, sociedade, trabalho, na família, na condição feminina, nas atividades criminosas, sexualidade, entre outros. Para o autor,  “este livro estuda o surgimento de uma nova estrutura social, manifestada sob várias formas conforme a diversidade de culturas e instituições em todo o planeta”. (CASTELLS, 2008, p. 51)
Com as novas tecnologias da informação o mundo integra-se em redes. Nessa integração surgem as comunidades virtuais que buscam significado e espiritualidade, essa busca de acordo com as idéias de Manuel Castells, é a busca pela identidade do ser, alterada pela sociedade informacional. Em cada contexto existe uma especificidade da identidade, que poderá ser movimentos sociais, feministas, pós-industrial, etc. Por identidade entende-se que é “o processo pelo qual um ator social se reconhece e constrói significado principalmente com base em determinado atributo cultural”. (CASTELLS, 2008, p. 57e 58).
A busca da identidade nessa nova cultura virtual parece aterrorizar por ter sua comunicação construída através de sinais e pelo seu caráter virtual. No entanto, o virtual é o que existe na prática, e o real é o que existe de fato. Dessa maneira, a realidade vivida é sempre virtual. Assim como a comunicação em todos os lugares e tempos é sempre um ambiente simbólico. Percebe-se que a comunicação e as comunidades virtuais  não  inovam tanto quanto geralmente se imagina. Em relação a isso, o autor de A sociedade em rede diz o seguinte:

 Quando os críticos da mídia eletrônica argumentam que o novo ambiente simbólico não representa a “realidade”, eles implicitamente referem-se a uma absurda idéia primitiva de experiência real “não-codificada” que nunca existiu. Todas as realidades são comunicadas por meio de símbolos  (CASTELLS, 2008, p. 459. grifos do autor)


Isto posto, pretende-se argumentar que as mudanças oriundas da revolução da tecnologia, tem caráter único, distinto das demais revoluções. Por outro lado, conserva o mesmo comportamento da sociedade em relação à aceitação ou não  daquelas mudanças e a necessidade de compreender e profetizar o futuro depois dessas modificações.
 Diante disso, passo a elencar teses que corroboram ao objetivo deste texto, e em certo sentido as idéias de Castells no que tange a não singularidade de importância dessa revolução em detrimento das demais.
Por volta do século VII a.C, o problema preponderante era a cosmológica. Vários pensadores tentaram compreender a origem do cosmos. Entender a harmonia da natureza fazia-se necessário para que se reproduzisse essa ordem natural na polis, encontrando assim, a igual harmonia da natureza na sociedade.
A preponderância do problema cosmológico começa a perder espaço em decorrência do crescimento da pólis, tornando a sociedade e suas relações mais complexas. Com isso, o objeto de investigação é deslocado, o foco começa a ser direcionado para o homem e seus problemas tais como justiça, ética, etc.
Essas mudanças provocaram grandes reflexões entre as quais destaca-se a escola mobilista de Heráclito.
A sabedoria de Heráclito esta na idéia de phanta hrei, tudo flui, todas as coisas mudam todo o tempo. Para ele as coisas que são por natureza brancas, com o tempo amarelam, as que são naturalmente quentes depois esfriam, o que é seco fica úmido, o que é úmido fica seco. Desse modo, Heráclito mostra que as coisas não estão mudando, mas elas sempre mudaram.
 Assim, a excitação causada pela mudança não se justifica pois se a mudança fosse um fenômeno sazonal, poderia ser motivo de preocupação, mas se mudar é uma constância, não carece de maiores alardes. Pois paradoxalmente, se existe uma essência, algo que não se muda, é a própria mudança, o fluxo, o eterno  devir e o vir a ser.
Se tudo muda, a admiração pela tecnologia e a aspiração de adequá-la,  reproduzi-la ou não  na educação parece sempre causar desconfianças, aprovações e ou reprovações. Isso   pode ser vista na posição assumida por Coménio em sua Didática Magna quando fala da tipografia:

(...) este novo método, embora a princípio meta medo com suas dificuldades, todavia, se for aceite nas escolas, servirá para instruir um número muito maior de alunos com um aproveitamento muito mais certo e com maior prazer, que com a vulgar ausência de método. (COMÉNIO, 1957, p. 455)


Outro exemplo é o advento da revolução industrial ocorrido na Inglaterra que levou Karl Marx a defender que haveria uma revolução do proletariado na Inglaterra devido à exploração dos trabalhadores.
Diante das mudanças sempre haverá alguém disposto a fazer predições sobre o destino da história. Parece ser característica da condição humana o receio da catástrofe diante do desconhecido dado por uma sociedade aberta, onde não sabemos o que está por vir,  na qual pouco ou nada é conhecido. Talvez seja crível dizer que sempre almejamos a sociedade fechada, tribal, isso é conhecida, na qual nos sentimos seguros em relação ao futuro.
Diante desses argumentos expostos, muito embora se refiram a fatos e épocas distintos, é possível vislumbrar, mutatis mutandis,  algo que permeia todas essas questões, que são perenes, a saber, o temor e ou a esperança  diante da mudança.
 Não obstante,  a questão estabelecida pelo fórum de discussão, “Quais as possibilidades educativas neste mundo povoado pelas tecnologias”. Oferece outro problema ainda não discutido pelos membros do fórum. Tal problema consiste em investigar a possibilidade da educação, com ou sem as tecnologias, independentemente de sermos faustos ou prometéicos.
Finalmente poderíamos ainda conjecturar qual é o objetivo final das tecnologias e da  educação, caso exista um fim último, qual seria esse fim ou melhor dizendo esse télos?
Os textos estudados nesta disciplina, explicam os processos de construção das tecnologias, das políticas envolvidas, sugerem as dificuldades e facilidades na utilização dessas inovações. Mas tendem a se restringir a essas  proposições. Não se ocupam em pensar um projeto educacional, que não se perca nas técnicas, nos meios, mas que consiga apontar um télos para a educação. Talvez uma vez feito isso, sabendo aonde se quer chegar, se torne possível à compreensão das possibilidades educativas neste mundo povoado pelas tecnologias.

 (este texto foi produzido como parte avaliativa da disciplina Tecnologias da informação e comunicação na educação - Doutorado Edu/Fil PUC - GO )
Bibliografia
CASTELLS, Manuel.  A Sociedade em Rede. São Paulo:  Paz e Terra, 2008.
COMENIO, J.A. Didática Magna. Praga: Fundação Calouste Gulbenkian, 1957.
MONDOLFO, Rodolfo. O pensamento antigo. São Paulo: Mestre Jou, 1971.
Ana Souto

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