quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Possíveis contribuições de Manuel Castells, Milton Santos e Hobsbawn para a compreensão da educação na sociedade informacional

Este texto tem singular importância, pois conduziram a leitura de Manuell Castells e as releituras de Milton Santos e Eric Hobsbawm. Independentemente da relevância ou não das questões apresentadas, essa tarefa é positiva, por nos tornarem mais inquisidores e afirmativos perante algumas questões.
 Na busca pelo saber e de autonomia intelectual, almejo encontrar aportes teóricos e a veia de minha própria argumentação. Mas até o momento, a postura intelectual alcançada, não somente ao que se refere às tecnologias,  parece se aproximar de uma  atitude filosofante, apoiada numa dúvida  dialética.
Desse modo, a releitura de Hobsbawn e Castells direcionadas agora para a questão da tecnologia e educaçao, entremostrou-me  um Milton Santos diferente do lido há anos. Agora mais ideológico[1] e romântico, no que se refere as tecnologias no mundo globalizado.
Assim sendo, pretendo apresentar  as teses que culminaram nessa crítica. Tais críticas não pretendem realizar juízo de valor sobre a globalização. Apenas sustenta-se que o mesmo fato pode ser investigado sob diferentes perspectivas. Não obstante, algumas  perspectivas podem ser mais plausíveis do que outras. Não pelos seus matizes mais ou menos altruístas, socialistas, comunistas, individualistas, liberalistas, mas por apresentarem coerência e rigor nos argumentos e não paixões.
Isto posto, passaremos a refletir  aspectos da obra Por Uma Outra Globalização de Milton Santos, que atribuem à globalização e as tecnologias todas as mazelas sociais.
“Alastram-se e aprofundam-se males espirituais e morais, como os egoísmos, os cinismos e a corrupção (...). Todas essas mazelas são direta ou indiretamente imputáveis ao presente processo de globalização”. (SANTOS, p. 20)
  Uma vez apresentadas as reflexões acerca do pensamento de Santos, confrontaremos algumas dessas idéias, que de maneira análoga teorizam os mesmos problemas tanto em Hobsbawm na obra: Era dos Extremos,  quanto em  Manuel Castells em Sociedade em Rede.
 Milton Santos inicia a obra afirmando que vivemos em um mundo confuso e confusamente percebido, e nos convida a compreendê-lo a partir de suas reflexões, alertando que devemos aceitar suas premissas sob o risco de cairmos numa crença enganosa.
 “...se desejamos escapar à crença de que esse mundo assim apresentado é verdadeiro, e não queremos admitir a permanência de sua percepção enganosa, devemos considerar a existência de pelo menos três mundos num só. O primeiro seria o mundo tal como se nos fazem vê-lo: a globalização como fábula; segundo seria o mundo tal como ele é: a globalização como perversidade; e o terceiro, o mundo como ele pode ser: uma outra globalização”. (SANTOS, p. 18).
 Esse argumento parece condicionar o leitor a aceitar previamente suas premissas, pois não aceita-las implica em ser enganado. Ao que tudo indica, ninguém quer ser enganado.
Assim o geógrafo sustenta que para a maior parte da humanidade a globalização atua como uma fábrica de perversidade, promovendo o  desemprego, a pobreza[2], a perda de qualidade de vida, a fome, o desabrigo, instalação de doenças como a  SIDA e o reaparecimento de outras. (SANTOS. p.19 e 20).
Todos esses problemas intrincados historicamente na humanidade de naturezas distintas, são colocados lado a lado, sem distinções entre si, de tempo e de espaço. São todos caracterizados como um advento peculiar da globalização cuja ferramenta para a fabricação da perversidade é o uso das novas técnicas.
Talvez seja mister pensar o sentido dos termos fabricação e perversidade.  Fabricar traz os sentidos de preparar, produzir. Já o termo perversão, do latim perversio, define a "ação de perverter", "transformar em mal", "depravação". Depravação (pravus) é definido como "contra a natureza".
Assim o uso desses termos faculta  a idéia de que essas mazelas sociais foram fabricadas preparadas e desviaram a humanidade de uma natureza boa. A fabricação dessa perversidade teria sido preparada por quem? A responsabilidade é atribuída ao capitalismo ao dizer que: “... se pode falar numa vontade de unificação absoluta alicerçada na tirania do dinheiro e da informação produzindo em toda parte situações nas quais tudo, isto é, as coisas, homens, idéias, comportamentos, relações, lugares é atingido”(SANTOS. p. 51) grifos nosso.
Esse estágio de perversidade global foi alcançado por estarem todas as técnicas a serviço do mercado. (SANTOS. p. 53).
Milton Santos denuncia em sua obra Por Uma outra globalização, que nesse modelo de mundo globalizado, as pessoas mais do que antes, carecem de informações. Ocorre que essas informações chegam a nós manipuladas configuradas como ideologia.
No entanto, seus argumentos trazem igualmente matizes ideológicos, pois ao denunciar  a nossa crença enganosa da realidade, ele define rigorosamente sobre o que se refere. Tampouco os sucessivos argumentos conseguem factualmente faze-lo. Pois o geógrafo ao criticar as técnicas e os modos daí decorrentes não esclarece sobre o que exatamente ele fala, não se ocupa das questões o quê?, Onde?, Quem? Como?. Desse modo muitas coisas tornam-se se passíveis de críticas e se furtam a análise rigorosa do que está sendo dito, pois não é possível ao leitor   um debate quer seja no âmbito das idéias a partir  dos conceitos utilizados na obra, haja visto que ele não os define. Seja pelo debate em contraposição aos fatos narrados na obra , pois aqui também não é evidenciado onde e como os fenômenos discutido ocorrem.
Milton Santos, parece colocar tudo que é desprezível no mundo como fruto da globalização, as teses são desenvolvidas de maneira ampla dirigida todos e a ninguém. Em vários momentos podemos vislumbrar essa faceta, por exemplo quando sustenta que com o alargamento do contexto dado pelas tecnologias é imposto ao nosso espírito um mundo fabulado dado por um discurso único, segundo ele, isso é alcançado da seguinte maneira:
 “seus fundamentos são a informação e o seu império, que encontram alicerce na produção de imagens e do imaginário, e se põem ao serviço do império do dinheiro, fundado este na economizaçao e na monetarização da vida social e da vida pessoal.”. (SANTOS, p. 18)
Em outro momento diz que “a história é comandada pelos grandes atores desse tempo real, que são, ao mesmo tempo, os donos da velocidade e os autores do discurso ideológico”. (SANTOS, p.28) 
 As teses simplesmente expõem uma idéia, que não permite discernir rigorosamente sobre o que é falado, por não  fornecer subsídios de entendimento ao interlocutor. Pois não sabemos, o que é o império do dinheiro, a que vida social e pessoal se refere.  Seriam as pessoas? Todas ou algumas? Seriam instituições? A sensação que temos é que o nosso engano acerca das reais condições do mundo é orquestrado deliberadamente por forças fantasmagóricas.
Segundo as análises do professor Milton a globalização levou a uma perversidade sistêmica. A fome atinge 800 milhões de pessoas em todos os lugares, os avanços da medicina não diminuem os problemas de saúde, pois 14 milhões de pessoas morrem todos os dias antes do quinto ano de vida; dois de pessoas não tem água potável, educação de qualidade é cada vez mais rara; assim como acabar com analfabetismo; a pobreza aumenta enfim vivemos em um mundo de exclusões.  (SANTOS. p. 59)
 As informações, dados quando são informados, eles não são precisos, quantificados e qualificados. As teses são expostas de modo axiomático, isto é, são premissas imediatamente evidentes que se admite como universalmente verdadeiras e sem necessidade de demonstração.
O autor lembra o exemplo positivo do século XVIII  que produziu Revoluções que foram respostas políticas às idéias filosóficas, tais idéias imbuídas de cunho moral, não deixaram à técnica da época nas mãos dos capitalistas. Dessa forma, é percebida a importância concedida aos intelectuais no processo de pensar o uso das técnicas.
Por outro lado, Santos parece entender que apenas um tipo de intelectual é de fato um intelectual. O verdadeiro intelectual deve pensar necessariamente sob um prisma, a saber, o que ele defende.[3] Pois fora desse perfil, é entendido como conivente do sistema perverso ou apenas um letrado. Para ele, o papel do intelectual é buscar a verdade, esses pseudoinlectuais não pensam e se pensam não as comunicam, uma vez que a verdade parece ser entendida como a aceitação da perversidade instaurada pela técnica e pela globalização. (SANTOS. p.74)
Todos que defendem algo diferente disso  “são intelectuais contratados – ou apenas contatados para legitimar essa naturalização”. (SANTOS. p. 72)
Assim como a crítica a atual globalização não evidencia rigorosamente os problemas, se limitando a apontar o quanto ela é nefasta. Tampouco a  proposta da  outra globalização, consegue faze-lo. Principalmente quando é apontado como exemplo de ações que podem levar a essa outra globalização, as investidas de países como o  Irã, Iraque, Afeganistão, China e Índia.
 Tal referencia as ações desses países devem ser vistas como sementes dessa evolução que é proposta?  Enfim a obra não esclarece em que consiste como alcançar essa nova globalização.
 Limitando-se a dizer que devemos abandonar e superar o atual modelo e substituí-lo por outro, capaz de garantir ao maior numero de pessoas a satisfação de suas reais necessidades para uma vida digna. Relegando ao segundo plano as necessidades fabricadas pelos meios de comunicação.
Esse pensamento nos remete a uma passagem da vida de Sócrates que por volta de 470 a.C., olhando o mercado de Atenas, considerou quantas coisas um ateniense precisava para viver. Hoje penso ainda ser crível perguntar, qual seria essa medida?
CONCLUSÃO
Retomando, em que as leituras de Milton Santos, Hobsbawn e Castells contribuíram para melhor compreender a educação na sociedade informacional?
Embora não tenha terminado, até este momento, o que inicialmente me propus a fazer, a saber, confrontar algumas teses de Milton Santos, aqui discutidas, a algumas idéias análogas de Hobsbawn e Castells, examinando diferenças de rigor na investigação.
Neste entendimento, o texto de Milton Santos, embora defenda valores sublimes para essa outra globalização. Para levar isso a cabo, ele opta por uma linha de raciocínio, em que suas premissas discorrem como um trem descarrilado  até o fim sem se ocupar em dialogar, analisar, conceituar, diferenciar com idéias e fatos opostos aos seus.
Essa forma de argumentar parece desconsiderar uma atitude dialógica da análise dos fenômenos. Ainda que Hobsbawn e Castells compartilhem com Milton Santos matizes marxistas. Essa redução da análise dos fenômenos não ocorre dessa forma em suas obras.
Mas sintetizando o que será posteriormente explorado. As leituras indicadas contribuíram para pensar a educação no contexto das novas tecnologias, na medida em que o pano de fundo que permeia todas  as teses, embora de maneiras distintas, sustenta que os países, as regiões, as pessoas, que não andarem concomitantemente com as novas tecnologias estarão excluídos dos processos sociais em todas as suas esferas, nesse outro mundo que se configura.
Esse andar concomitantemente com a tecnologia, implica vários aspectos: o  seu consumo ou não, o seu uso ou não,  a produção de novas tecnologias ou não. Mas, sobretudo devemos nos ocupar em pensá-las. Quanto a esse papel a educação não poderá se furtar.
Essa impossibilidade de se furtar a tecnologia pode ser ilustrada nessa citação:
“(...) o novo paradigma da tecnologia da informação fornece a base material para a sua expansão penetrante em toda em toda a estrutura social.  (...) essa lógica de redes gera uma determinação social em nível cada vez mais alto  que a dos interesses sociais específicos expressos por meio das redes: o poder dos fluxos é mais importantes que os fluxos do poder. A presença na rede ou a ausência dela (...) são fontes cruciais de dominação e transformação de nossa sociedade. Uma sociedade que portanto, podemos apropriadamente chamar de sociedade em rede, caracterizada pela primazia da morfologia social sobre a ação social” (CASTELLS. p.565)
A educação certamente é um dos elementos capazes de promover a análise morfológica, estrutural da sociedade, globalizada, pervertida, fabulada, ideológica ou qualquer outra forma social que porventura existiu ou existirá. A educação será sempre basilar para qualquer proposta de um mundo melhor. Não concedendo a priori a veracidade a qualquer argumento simplesmente pela autoridade tributada a um autor.
Enfim, o que é realmente importante diante das novas tecnologias a partir de nossas leituras, continua sendo simplesmente a educação. Em todos os seus sentidos, educatio, eucare e educere.



[1] O termo ideologia  será usado apenas neste sentido: “a inversão entre causa e efeito, principio e conseqüência, condição e condicionado leva à produção de imagens e idéias que pretendem representar a realidade. As imagens formam um imaginário social invertido – um conjunto de representações sobre os seres humanos e suas relações, sobre as coisas, sobre o bem e o mal, o justo e o injusto, os bons e os maus costumes, etc. Tomadas como idéias, essas imagens ou esse imaginário social constituem a ideologia.”.  (CHAUÏ, Marilena. Convite a Filosofia. 1997;  p. 416 e 417. grifos do autor)
[2] Embora o autor estabeleça três tipos de pobrezas: a  incluída,  a marginalidade e a estrutural globalizada. Ele se ocupa de modo superficial da questão deixando de fora aspectos importantes como destaca Leo Huberman em História da Riqueza do homem. Nessa obra Huberman diz: “...os dados sobre o número de mendigos no século XVI e XVII são surpreendentes. Um  quarto da população de Paris na década de 1630 era constituído de mendigos, e nos distritos rurais seu número era igualmente grande. (...) assim como na Inglaterra (...) Holanda e Suíça”. Este período é considerado por Huberman como a Idade dos Mendigos.
[3] Embora citado anteriormente, retoma-se o argumento.“se desejamos escapar à crença de que esse mundo assim apresentado é verdadeiro, e não queremos admitir a permanência de sua percepção enganosa, devemos considerar a existência de pelo menos três mundos num só.”
 (texto produzido como parte avaliativa da disciplina Tecnologias da informação - doutorado Edu/Fil Puc - Go

Ana Souto


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